Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

Fanques Fair - canal de coletâneas, por Pablo Castro

No presente século a intensa digitalização combinada à profusão de aparatos eletrônicos dotados de microships afeta de forma inegável a produção, a circulação e o consumo da música de modo geral e da música popular de modo particular. Dentre estas novidades expandiu-se enormemente nos últimos anos a veiculação de música popular através de canais do You Tube, não apenas através de reproduções de apresentações ao vivo ou videoclipes produzidos originalmente para televisão, como de início, mas de todo tipo de produção audiovisual independente da lavra de artistas os mais diversos e de apreciadores espalhados pelo mundo que dedicam parte de seu tempo a "subir" conteúdo que julgam importante compartilhar pela web, incluindo aí as discografias completas de um sem número de músicos. Se nesse caso o formato canção assume o papel de unidade básica, o recurso ao You Tube não eliminou de todo a figura do "álbum", em muitos links reproduzidos por completo, e permitiu ainda uma das reencarnações atuais do hábito de criar coletâneas, difundido especialmente durante o reinado analógico das fitas K7. 

Uma enorme massa de informação e material bruto ganha as vias digitais e torna-se uma aventura interessante, mas muitas vezes também frustrante, procurar o que se deseja. Surge daí a tarefa de buscar reunir, referenciar e destacar nexos entre tantas fontes diferentes, trabalho que tem encontrado uma descrição genérica no uso, talvez um tanto elástico, do termo curadoria. O que vejo aproxima-se mais de práticas de colecionamento de todo tipo, que podem representar simplesmente o exercício de aglutinar preferências num mesmo local de acesso, até o trabalho mais delongado de investigar a fundo discografias e organizar grandes pacotes selecionados de registros fonográficos produzidos de forma a permitir uma apreensão menos fragmentada

Tudo isso torna assaz proveitoso um mergulho nas coletâneas [playlists] que meu parceiro Pablo Castro vem organizando, quase sempre propondo uma audição além do óbvio para a obra de grandes criadores da música popular em volta do planeta. Usando o pseudônimo "Fanques Fair" (inspirado no artista circense citado por Lennon na canção Being for the benefit of Mr. Kite) , ele já produziu vários "extratos", dentre os quais destaco a coletânea sortida de 100 canções do Clube da Esquina:



Para acessar o a área completa das playlists, clique aqui.


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P.S.
Pequenas curiosidades biográficas sobre Pablo Fanque [para saber mais, aqui e aqui]:

Pablo Fanque (born William Darby in 1796 in Norwich – died May 4, 1871 in Stockport) 
Primeiro negro a ser proprietário de um circo na Grã-Bretanha.
É possível que seu pai tenha sido mordomo e tenha nascido na África.
Além de ser excelente cavaleiro e adestrador, era um acrobata de muitos méritos e andava na corda bamba. 


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