Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

Produção Artística


Como uma das novidades do blog no ano de 2014, nessa página vou postar material referente à minha produção artística, especialmente letras, vídeos e áudios dedicados às canções que fiz ou vier a fazer, em parceria ou eventualmente solo. Para combinar mais com a proposta do blog, vou acrescentar histórias, lembranças, pequenos comentários que serão como pequenos exercícios reflexivos sobre o ato de compor e seu entorno simbólico e prático. Para acessar todos os textos dessa seção, clique aqui.



Ponto Oriental
Vou começar com Ponto Oriental, letra que depois foi musicada por meu parceiro Pablo Castro, talvez porque tenha alguns detalhes nela que valem alguma notas. Uma curiosidade, que é o fato de ter sido escrita direto no computador, num arquivo .txt, com certeza uma das primeiras que fiz assim. Um processo que tem uma certa praticidade e uma materialidade própria, até na forma de ver as palavras tomarem forma, muito diferente de escrever à mão.
Adeus do ator
Para a segunda canção da série, escolhi Adeus do ator. Dentre outras razões poderia citar o recente passamento do José Wilker, a quem o Pablo a dedicou ontem no show que realizou no Sesc Palladium. Lembro-me de ela ter sido dedicada a Walmor Chagas, Raul Cortez, Paulo Autran, e  mais recentemente ao Phillip Seymour Hoffman. Não sem uma certa ironia, curiosamente uma das inspirações centrais foi a morte de uma atriz, grande nome de nosso teatro: Cacilda Becker. O derrame cerebral que lhe acometeu em cena foi, num hiperbólico exercício de ficção, transformado na morte em pleno palco do personagem central da letra.

Carpe Diem
Retomo, depois de algum tempo, a série sobre as canções que escrevi, dessa vez falando um pouco sobre Carpe Diem, em que fiz a letra para música do Pablo Castro, bem a tempo de integrar a lista das que seriam gravadas no álbum A outra cidade (2003) [um pouco de sua história, aqui; para comprar - vale a pena! - aqui]. Na época da gravação do disco eu estava cheio de obrigações profissionais e domésticas, e não pude participar do processo na intensidade que gostaria. Mas certo dia calhou de estar com o Pablo e ele me apresentou, ao teclado, uma canção que a princípio recebera uma letra em inglês da qual ele não se lembrava. Uma parte já estava bem definida, a outra nem tanto. Gostei de cara da melodia e da harmonia, ouvindo ali o encontro das águas das obras dos Beatles e do Clube da Esquina, que ambos admiramos e tomamos como referência fundante do nosso fazer musical e experiência cultural.
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A Feira
Continuando a série, hoje vou escrever sobre A Feira. Há vários caminhos pelos quais as letras podem se encontrar com as canções. Esse aconteceu de forma bem peculiar. De certa forma, foi como se as duas fossem velhas conhecidas, andando pelo centro de Belo Horizonte, que acabaram se trombando casualmente. Então, vão gastar horas matando a saudade, botando a conversa em dia. Assim também comecei A Feira como um texto livre, vagamente sugestivo para uma canção. 

Baião nosso de cada dia
Seguindo em frente com essa série, motivado pelo dia de Iemanjá e minha recente passagem pela Bahia vou falar da canção Baião nosso de cada dia (música de Pablo Castro, letra de Luiz H. Garcia), que por muitos anos era carinhosamente conhecida por nós e o círculo composto pelos músicos que a tocavam e alguns amigos próximos como Baiãozinho, ou Baiãozim. O diminutivo e a sílaba "im" - índice de fala brasileira interiorana - eram elementos distintivos da canção. Relutei muito em adotar outro título que não esse que me parecia consagrado pelo uso. O Pablo insistiu na mudança e me venceu, um tanto pelo cansaço e outro tanto porque nas sucessivas tentativas de encontrar uma boa alternativa, acabei me inspirando na sacada de O patrão nosso de cada dia dos Secos & Molhados.
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Intuição
(...) adianto que não poderia, nem se eu tentasse, contar toda a história de Intuição. Prefiro e creio mais adequado fazer um exercício, recolher algo de reminiscência do impulso que deu origem a alguma coisa que foi ali uma espécie de crisálida, que depois de um tempo voltou como uma borboleta pronta, esvoaçando e pousando no meu ouvido. Estava ali contemplando aquela forma embrião, aquela primeira célula, aquelas notinhas se insinuando nas cordas do violão do Pablo. Pelo que me lembro era aniversário dele, uma festa no apê da Zoroastro Torres, muita, muita gente. Muita conversa animada. Não sei se ele já havia tateado aquela introdução antes, ou se foi ali, no meio do caos, que a larva se esgueirou pela madeira à procura de folhas. Sei que eu encontrei o papel, um dos vários cadernos de rascunho que mantínhamos ali entrando e saindo da vista. Então, literalmente, o vento soprou no meu ouvido: in-tu-i-ção. Enquanto o embrião de uma valsa brasileira se formava, em divisões celulares, foi surgindo o enredo, que era o desvendar de uma traição.{continuar a ler}

Moby Dick
Depois de algum tempo retomo essa série, procurando narrar um pouco a história por trás da criação das letras de canção que já escrevi. (...) Eu estava devendo desde uma postagem anterior tratando da literatura como inspiração para a canção [aqui] contar sobre Moby Dick. Lá se vão muitos anos, efetivamente mais de um década, desde sua feitura. Curioso que só agora, enquanto escrevo, a "irmandade" de Moby Dick e Carpe Diem se revela esclarecedora do processo criativo... a outra também fala de mar e igualmente teve como fagulha um romance, o Robinson Crusoé de Defoe. Mas se antes foi fagulha, aqui o raio caiu com voltagem altíssima, na sua fulgura matando a charada de uma vez. Era tratar de converter o épico embate entre o capitão Ahab e o cachalote branco do romance de Melville, datado de 1851, numa letra de canção com poucos minutos de duração. {continuar a ler}

Coisas Vãs
No caso de "Coisas Vãs" até que não tenho do que me queixar, tenho aqui comigo alguns esboços escritos na velha agenda ano 2 mil que ainda me serve de caderno, mais duas versões diferentes da final em arquivos txt - acho que essa mania de gravar nesse formato não perdi porque lembra vagamente papel datilografado - e ainda uma antiga gravação em MP3 datada de 2005. É provável que as primeiras versões da canção datem de 2003, 2004. Mas não pretendo entupir esse relato de exemplificações sobre mudanças de versos, palavras aqui e ali. Vou apenas me servir disso na medida em que me permita contar um pouco sobre a feitura da letra. De início, direi antes de mais nada que foi muito trabalhosa. Vejo aqui versões enormes, com muitas ideias e partes descartadas.  {continuar a ler}

Reinvento
Falamos mais um pouco sobre a forma e ele me mandou o que já havia feito da letra. Aparentemente a tarefa de arrematar algo tão encaminhado é fácil. É só seguir a linha, sem complicar - e de fato foi coisa de uns dois dias. Mas é preciso encontrar uma porta de entrada, e um jeito de andar pela casa em fase final de arrumação, sem tirar os móveis que estão no lugar. Decidi, ainda na conversa, que entraria pelas citações, ensejadas pelo mote da influência do Clube da Esquina, bem explicitada na retomada do verso de Brant "meu caminho é de pedra".{continuar a ler}

Aos réus
Foi nesses dias, de um outubro um tanto sonâmbulo, que o meu parceiro Raul Mariano me propôs a tarefa de desenvolver uma letra a partir do que já iniciara. Deixo ele mesmo contar:
 "Aos réus nasceu da ideia de compor um afrosamba apocalíptico, falando desse estado de coisas, desse mal-estar coletivo, que vivemos agora. A canção é tocada com o mizão afinado em ré, uma afinação muito usada por baluartes como Baden Powell. Iniciei essa letra tomado por um sentimento de impotência diante dos inúmeros episódios negativos que o Brasil tem vivido nos últimos dois anos no campo social, econômico, político. Com algumas estrofes e a melodia quase toda pronta, convidei o Balu [apelido de longa data deste que vos escreve] para "fazer a coisa crescer" e ele, como de praxe, concluiu a letra brilhantemente. Inclusive trazendo o refrão que ainda não havia." {continuar a ler}

Ocupai, ocupai
A nossa preocupação maior era evitar fazer uma letra muito "datada", no sentido de se apegar muito a fatos e nomes em baila no momento da criação, caminho tomado por muitas marchinhas. Tomar os políticos locais como foco era praticamente inevitável naquele momento. O imperativo "Ocupai" era uma forma de ir um pouco além, fazendo essa ligação com as mobilizações espalhadas pelo mundo que tinham como mote a ocupação dos espaços públicos. Ao mesmo tempo era a brincadeira da sonoridade coincidente como o inglês Ocupy. {continuar a ler}


7 comentários:

  1. Obra-prima; apenas.

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  2. Caramba pessoal! Sempre quis saber mais sobre essa canção. Ponto Oriental foi a primeira música que ouvi e me fisgou, no myspace do Pablo, há alguns anos. Essa letra já é incrível por si só. Depois de musicada então, ficou incrível. Parabéns procês!

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  3. Só posso agradecer a escuta e leitura sensível de vocês, Paulim e Raul.

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  4. saber a motivação da obra, seu caminho.. é quase como também estar criando. obrigado, Luiz.

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    1. Grande Serginho, é mais um combustível pra todos nós que botamos a mão na massa da palavra.

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