Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

29 de setembro de 2017

Bolacha completa - Refavela (1977) - Gilberto Gil

Aproveitando o ensejo do show de reapresentação do álbum Refavela de Gilberto Gil, por ocasião dos 40 anos de sua gravação, insiro aqui a entrevista que meu parceiro Pablo Castro concedeu à Rede Minas comentando o discos como um todo e suas canções.


É uma ambição antiga produzir conteúdo em vídeo para este blog, o que por enquanto tem se mostrado inviável, mas essa carona veio muito a calhar. 








Como sempre a sessão Bolacha Completa traz o link para a audição do disco, informando que não detém direitos nem hospeda conteúdos, ficando totalmente à disposição para atender qualquer determinação dos respectivos proprietários.

27 de setembro de 2017

A canção e o humor contra a violência

Entre os dias 2 e 4 de outubro próximo, na Escola de Arquitetura da UFMG, acontecerá o Colóquio Internacional O humor contra a violência na cidade. Juntamente com a colega Miriam Hermeto, do Departamento de História da UFMG, coordeno a sessão A canção e o humor contra a violência [todos os detalhes aqui]. 


Uma versão resumida da apresentação:
A canção popular se define basicamente na refinada coordenação entre música e letra, imbricadas a ponto de configurarem um ente único. Nas relações entre o formato-canção e o meio urbano, definem-se espaços de produção, circulação e consumo, estabelecendo as ligações entre seus artífices, os mediadores culturais e o público. Assim, a canção tem sido tratada como um híbrido: produto de mercado, obra de arte, expressão de representações sociais e elemento catalisador de sociabilidades. Sempre foi uma forma de pensar o social e seus conflitos, inclusive a violência, desenvolvendo uma tradição crítica marcada por recursos expressivos, como o humor, em suas diversas tonalidades: a farsa, a ironia, o sarcasmo, a sátira, o humor negro, a paródia, o nonsense, entre outros. Ressalta-se que o recurso da crítica, na linguagem cancional, emerge não apenas nas palavras, mas na relação entre texto e elementos sonoros, como melodias, ritmos, timbres, ruídos, harmonias, arranjos, citações, etc.


Procurando sair um pouco da rotina dos formatos tradicionais de eventos acadêmicos, decidimos montar uma sessão que partisse do princípio de que dedicaríamos um tempo maior para a audição e debate, após apresentações mais curtas dos 4 convidados:


As sonoridades do humor, com Guilherme Castro, Doutor em fundamentos teóricos aplicados à produção musical pela UNICAMP e Mestre em sonologia/música e tecnologia pela UFMG. Professor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e da UEMG. Compositor, guitarrista, vocalista e produtor musical.

A canção como mediadora dos conflitos sociais, com Makely Ka, Poeta, cantor, violonista, produtor cultural e compositor.

À la lanterne: humor e violência na Paris sob a Revolução de 1789, com Allysson Lima, Mestre e graduado em História pela UFMG.

“Nós vamos invadir sua praia”: violência social e marginalização geográfica na cidade do Rio de Janeiro, com Bruno Vinícius de Morais, Doutorando, mestre e graduado em História pela UFMG.
Só pra dar o gostinho montei aqui uma lista com algumas das canções que iremos debater na sessão:









P.S. Síntese do evento:

Corri pra não perder o ônibus e chegar em tempo na Escola de Arquitetura para coordenar junto com Miriam Hermeto a sessão musical do colóquio O humor contra a violência na cidade, contando com uma escalação de prima na mesa com Guilherme Castro Allysson Lima Bruno Vinícius de Morais e Makely Ka, o prestimoso apoio da Maria Letícia Ticle e demais colegas da organização. Com a proposta de fugir, ainda que parcialmente, do lugar comum das mesas acadêmicas, promovendo a coloquialidade, passeamos por diversas épocas, contextos e gêneros, ouvimos de tudo um pouco, de marcha revolucionária francesa a rock brasileiro e samba de breque, falou-se de Mozart a Rincon Sapiência, cantou-se alguma coisa, de introdução de Bohemian Rhapsody a refrão de pagode. Que esse ecletismo não engane os desavisados. Análises argutas puseram a nu os conflitos sociais, as querelas estéticas, as disputas políticas, demonstrando como a canção tem enorme energia centrípeta, capturando em seus termos os embates e deles participando tantas vezes exercendo pelo humor formas de mediação que sugerem acomodações mas também alguma forma de violência, que pode ser do tipo que demole as convenções e os mitos, dessacraliza os grandes e dá voz aos silenciados. Esse humor que é um recurso indispensável para a vida democrática, hoje tão ameaçada.

24 de setembro de 2017

Navegação errática #1

Sempre me pego praticando esse tipo de Navegação Errática, pescando um link aqui, uma referência ali, indo parar onde menos espero nas praias do oceano digital. Resolvi criar uma série com os resultados desse tipo de exercício de flanagem digital.
Por enquanto não vou ficar elaborando muito, só enfileirar o que encontrei.



A trilha do dia começou com uma passeada pela obra de Assis Valente, motivada pela inevitável lembrança de E o mundo não se acabou, na inconfundível e inimitável interpretação de Carmen Miranda.



Minhas postagens de Assis Valente motivaram ao amigo pesquisador Magno Córdova a lembrança da gravação de Bethânia e Nara Leão para Minha embaixada chegou em "Quando o carnaval chegar"



Acabei caçando uma cópia do filme [aqui] e de um pulo parei num outro, que já me escapou o título mas cuja trilha me intrigou. Descobri que era do quinteto de excelentes instrumentistas brasileiros Mandala [Roberto Sion - Flauta, Sax Luiz Roberto Oliveira - Sintetizador, Violão Zeca Assunção - Baixo, Voz Nelson Ayres - Piano Zé Eduardo Nazário - Bateria, Percussão], que em 1976 gravou o disco homônimo:




Daí o algoritmo do You Tube abriu um monte de discos na barra lateral, e me fisgou pelo título o disco Belorizonte (1983) da banda Aum, da minha terra natal, que eu realmente não conhecia. Algumas informações aqui e aqui. Disco independente gravado no nosso cheio de história estúdio Bemol. Na sequência bati um papo online com meu amigo Tito Flávio Aguiar, professor da UFOP e colega nas desventuras de doutorado, e como eu imagine ele não só conhecia a banda - José Paulo Mesquita (Baixo) ; Leopoldo Mesquita (Bateria); Marcio (Frango) (Guitarra); Betinho (Teclados); Taquinho (Guitarra) - como tinha ido a um show dos caras. Como eu já suspeitava o nome era referente ao mantra hinduista Om. 



30 de agosto de 2017

Nas paradas de sussexo

Uma problematização desse contraditório fenômeno em que a objetificação do corpo feminino é absorvida acriticamente sob o crivo do "empoderamento", da forma como se manifesta no âmbito da música pop internacional.

Por Pablo Castro
Sobre o texto que compartilhei agora há pouco, que falava do clip da cantora Anitta em cima de uma laje de favela com mulheres nuas. 



Em primeiro lugar, eu sou totalmente contra qualquer tipo de repressão moralista, controle sexual, homofobia, perseguição de que espécie for contra orientação de gênero ou sexual de que espécie for, salvo pedofilia, necrofilia e outras síndromes como essas.
Realmente o texto compartilhado é muito agressivo, alguns qualificaram de misógino, outros concordaram. Impressiona particularmente a veemência com que algumas das minhas amigas virtuais condenaram o texto e outras defenderam-no.
Bom, a realidade atual é muito difícil de analisar, tal a avassaladora velocidade de informação, críticas, defesas e ataques, que o ambiente virtual propicia através das redes.
Mas o fato é que há um curto-circuito na idéia de empoderamento feminino preconizada pelo feminismo atual. Por um lado, o que se chama de "objetificação feminina" pela indústria cultural é denunciado como uma estrutura machista. Por outro, a própria idéia de empoderar-se implica ter suas próprias decisões à revelia da moral puritana vigente, particularmente nos EUA; no Brasil a moral católica hoje modificada sobretudo pela ascensão das evangélicas, tem um efeito parecido.
Ou seja, ao empoderar-se , a mulher teria todo o direito de andar da forma que quiser, onde quiser, e qualquer crítica a isso seria uma manifestação do moralismo patriarcal .
Mas aí, voltamos ao começo da conversa. Em primeiro lugar, segundo Freud e a maioria dos psicólogos , não existe desejo sexual sem alguma forma de objetificação. Não só a mulher é objetificada pelo homem numa relação sexual, mas também o homem é objetificado pela mulher na mesma situação íntima.
O xis da questão me parece residir na difusão cultural-simbólica de massas que impõe, hoje, a qualquer cantora de sucesso como Anitta, um modelo de sexualidade que, longe de ser uma decisão individual dela, é um fator de mercado. E , mais do que um fator de mercado, é condição sine qua non para o pertencimento a uma gama limitadíssima de super-stars contemporâneos.
O clip da Anitta, pelo que parece, não é radicalmente diferente dos clips de Madonna, Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga. São todos variações do mesmo tema : hiper-sexualidade impositiva, a idéia de harém (ou com homens ou com mulheres figurantes que fazem o papel de escravos sexuais) , a sugestão de "controle mental" , e um sem-número de mensagens subliminares. A única diferença palpável é o clip de Anitta rolar numa favela.
A música e a letra passam a ser meros detalhes do pacote , no caso de todas essas estrelas do pop-internacional.
O que agrava a questão , na minha opinião, no caso da cantora brasileira, é o fato incontestável de que temos uma cultura sexual já violenta, com alarmante índice de estupros, tráfico de mulheres, maternidade precoce, abortos clandestinos de adolescentes, violência doméstica contra a mulher, e feminicídio.
Isso é culpa da Anitta? Evidente que não. Isso já era assim há muito tempo. Mas pretender que o ambiente cultural de massas paupérrimo em que se transformou a música de massas no Brasil não tem nada a ver com isso, discordo. Tem a ver sim.
(Só lembrando que , hoje, TODAS as GRAVADORAS no Brasil são multi-nacionais com sede nos EUA. E que a cúpula da indústria fonográfica e cinematográfica mundial tem sido acusada por gente lá de dentro como ligada a uma rede mundial de PEDOFILIA. [Ex] Atores mirinis como Corey Feldman (https://www.youtube.com/watch?v=roW238dfUUk) e Elijah Wood (https://www.youtube.com/watch?v=qRLT9qtDvks) têm denunciado isso verbalmente).

Enfim, eu acho que já passou da hora da esquerda de um país como o nosso se atentar sobre essas questões.Sem binarismos. A música de massas e o cinema blockbuster não são fenômenos naturais, mas indústrias bilionárias controladas por pouquíssimas pessoas , e totalmente desvinculadas de qualquer tipo de "decisão individual" de qualquer artista .

27 de agosto de 2017

Sampleagem indébita

Na última semana meu parceiro Pablo Castro encontrou o que denominou de "plágio fofo", que efetivamente era um sample de parte da gravação de Tudo que você podia ser, canção de Lô e Márcio Borges, na versão que figura no LP A Via Láctea. Eis o dito cujo e a fonte do sample:






Esse exemplar desencadeou um longo debate, cuja inteireza seria dificílimo reproduzir aqui. Neste caso optei por deixar o link para a postagem dele no facebook [aqui]. Incentivo fortemente os leitores que se interessem pelo tema que confiram lá para ter uma visão mais completa de como o debate correu. Aqui farei apenas um extrato combinando considerações que ele fez numa postagem posterior com algumas colocações pinçadas da primeira, e eventuais pitacos de minha parte ao final, uma vez que isso é um texto com autoria, assinado, e adianto que em um ou outro ponto não temos posições coincidentes por completo.

Por Pablo Castro:
"Breves considerações pessoais sobre o incrível caso das apropriações musicais indébitas expostas no post anterior, particularmente de gravações originais de Lô Borges e Milton Nascimento:

Em primeiro lugar , é extremamente irônico que essa música frequentemente descrita como "anacrônica" , "difícil " , "elitista" e alcunhas afins esteja sendo utilizada como base de faixas produzidas no âmago da matriz industrial norte-americana. Nada mal para uma mera relíquia do passado, não é ?

Em segundo lugar, me parece que a assim chamada "cultura do sampler " não passa de um mero pretexto infame e abjeto dessa indústria fonográfica colonial no sentido de super-explorar o talento de compositores de "outras eras " e de "lugares distantes " como o Brasil , cujas canções podem ser roubadas a torto e a direito porque ninguém nunca vai notar . Vejam bem , nem estou falando dos direitos fonográficos em si , uma vez que eles já estão em sua esmagadora maioria nas mãos das "majors" , mas da absoluta falta de conhecimento prévio dos autores ( não falo apenas nos compositores , mas também dos instrumentistas cujas idéias de arranjo se imbricam nas faixas originais), autorização expressa e crédito devido . Uma verdadeira festa , blindada pela impressão de que o rap é " dos excluídos" portanto qualquer questionamento seria uma espécie de demonstração de avareza e egoísmo daqueles que estão na prática sendo lesados . Independente de ser remunerado ( a quem ?) o uso das gravações originais , o fato é que o Lô Borges nunca soube , autorizou ou foi sequer consultado a respeito dessas apropriações que se tornaram ponto de partida das faixas dos rappeiros . Eu não considero nada lisonjeiro isso com um artista que tem uma obra de quase meio século . Se aconteceu de algum outro artista ter autorizado , ter sido remunerado e ter voltado a "acontecer" no cenário musical , que bom pra ele . Contudo , nos exemplos compartilhados nesse post , nenhum deles sequer cita o artista original nas páginas do youtube . Acho isso incrivelmente desrespeitoso , sem sequer entrar no mérito contratual. [inserido do post anterior] [Nota do editor: nesse ponto acho pertinente inserir o link que nos enviou nossa amigo comum Greg Caz, experiente Dj da noite novaiorquina e profundo conhecedor de música, inclusive brasileira. O site WhoSampled mapeia as ocorrências de sampleagem da obra de um determinado artista. Aqui as do Lô Borges. Também localizei o verso do CD do Joe Bada$$ e como se pode ver no verso, TODOS os PRODUTORES estão creditados e NENHUM dos autores. 

Terceiro ponto: quase todos as faixas que escutamos poderiam facilmente ser regravadas com as ideias apropriadas dos originais , bastando para isso tirar de ouvido tais elementos e regravá-los com timbres diferentes . Não sei se a insistência em usar os samplers foi por corte de custos ou pura preguiça. O que acaba ficando tácito é que pagar pelo uso do fonograma original fica mais barato do que pagar um arranjador, um transcritor, um músico ou umas horinhas a mais no estúdio.

É bom lembrar que não estamos falando de meras citações ou trechos curtos , mas da própria base de harmonia , levada rítmica , e sonoridade que perpassa desde o começo os novos fonogramas. São os pontos de partida das gravações, não meros adornos eventuais.
Pra mim isso é plágio mesmo , uma vez que certas cadências harmônicas são tão específicas , elementos de arranjo se tornam centrais na nova faixa , e às vezes mesmo um longo trecho da voz original ocorre na apropriação. Uma coisa muito capciosa do ponto de vista ético .[inserido do post anterior]

Pra finalizar , por que tais rappers não se dedicam a CRIAR as próprias músicas ? Ou no mínimo contratam alguém pra isso ? Acredito que parte da resposta passe pelo fato de que NÃO É FÁCIL criar novas ideias sintéticas em música popular , não falo nem das canções em si , mas de pequenos elementos originais."

Notas posteriores do editor Luiz H. Garcia:


Há relatos consistentes de que se pratica também a devida creditação e remuneração de direitos. Com o tempo parece que o procedimento foi sendo regulamentado, afinal as grandes gravadoras são as donas dos fonogramas e o sample é extraído do fonograma.  Mas isso até onde pude constatar surgiu como reação a práticas indébitas. Se desde o começo todos os sampleadores creditassem e remunerassem, não haveria necessidade dessa mudança.  Eu acho que além da questão monetária e jurídica tem que ser levada em conta a questão artística mesmo. Ou seja, se alguém algum dia inserir ipsis litteris o que eu escrevi em seu próprio trabalho, sem meu consentimento, repito, sem o meu consentimento, acredito que é uma violação. Me reservarei o direito de não gostar, no mínimo.  Não consigo entender essa desculpa esfarrapada de homenagem. Não excluo a possibilidade do sampleador de fato admirar o trabalho de quem está sampleando e nem de que tal processo ajuda a difundir a criação original e até conquistar ouvintes para a mesma. Mas, se há reverência e respeito por quem se quer homenagear, nada mais coerente do que, no mínimo, lhe dar o crédito, ou melhor ainda, consultá-lo sobre a cessão da obra, integral, parcial, como for. Apresentar a quem desconhece um trecho de uma obra sem qq referência de onde procede esse trecho pode perfeitamente induzir o ouvinte a referenciar-se apenas naquele som - e pode levá-lo a achar que o sampleador é autor. Se quem sampleia sabe perfeitamente qual a fonte, não cita porque? Qual o mistério? Qual a dificuldade? Isso não cola, não. Só fechando, se me pedissem, se eu gostasse da proposta, e me sentisse respeitado como artista, no que dependesse só de mim eu poderia aprovar. Não é nada apriorístico contra o procedimento nem contra o Rap. Melhor do que pregar o respeito, é praticá-lo. 

P.S. Reconhecendo que os nossos posicionamentos, no que concordamos no todo ou em parte, não esgotam nem de longe a questão, após uma justa provocação compilei algumas das muitas colocações do nosso amigo Greg Caz, por cuja opinião na matéria tenho enorme respeito. Agradeço muito a ele a gentileza da cessão do texto e os esclarecimentos prestados. Vale também ressaltar que todo o debate iniciou-se num caso particular e sabemos os riscos das generalizações. No presente eu não tenho nenhuma pesquisa quantitativa sobre o percentual de apropriações indébitas e não creditadas e o oposto. Nesse sentido se trata de criticar o que não é feito devidamente sem qualquer intenção de demonizar esse ou aquele gênero ou artista. 

Por Greg Caz:
No caso dos artistas de hip-hop americanos, a prática tradicional sempre foi o "digging," garimpar os discos mais obscuros possíveis para tirar trechos para produzir faixas que deixam os fãs e principalmente a concorrência boquiabertos. Geralmente colocam os créditos nos encartes mas nem sempre, se se fizeram de uma maneira que nem o artista original pudesse reconhecer seu próprio trabalho se ouvisse.
Os discos da mineirada, dentre vários outros brasileiros, sempre aparecem nos lugares onde os caras vão procurar discos para samplear. Você vê discos de jazz, de soul, de funk, de rock, de reggae e aí surgem cópias de "A Vía-Láctea," "Terra Dos Pássaros," "Minas," algum disco do Flávio Venturini, sei lá...aí o pessoal pega, escuta nos fones da loja e levam pra casa ou o estúdio...e eis o resultado. [Titulo da música] contains samples from 'Ponta De Areia' written by Milton Nascimento and Fernando Brant and performed by Milton Nascimento." Essa é a frase mais comum que se vê nos créditos dos discos de hip-hop.
Eu diria que em 80-90% dos casos dão os créditos. Sendo eu alguém que sempre lê os créditos e compra discos de rap desde os anos 80.
O processo de "clearing samples" com as editoras originais já chegou a causar uma demora no lançamento dos discos. Antigamente dava pra lançar um disco cheio de samples de tudo lugar mas hoje em dia isso se tornou mais raro porque agora cobram MUITO nos samples. Só os Jay-Z e Kanye West e poucos outros podem ostentar samples caríssimos em seus discos pois isso agora é coisa de rico.
Hoje em dia a maioria do que se chama de hip-hop nem tem mais samples, é tudo um som eletrônico chato sem alma e sem suingue, porque (primeiro) os mais novos não se interessam mais em se dar ao trabalho de pesquisar músicas antigas e (segundo) custa muito samplear hoje em dia. Mas antes disso acontecer havia gente em cada gravadora cuja carga era segurar as autorizações de cada sample usado, era um sistema todo. É muito dinheiro envolvido e ninguém quer processo, melhor pagar mesmo. Essa dos artistas velhos voltar a ter renda por causa do rap é a mais pura verdade.
Outra coisa: fora a questão de ser pago pelos samples ou não, os artistas originais reconhecem que as carreiras deles agora têm novo impulso por causa disso. Muitos são muito mais reconhecidos e famosos hoje do que foram na época em que lançaram seus discos originalmente, por causa do sampling. Por minha parte, e sei que falo para muitos quando digo isso, uma ENORME parte do meu conhecimento e da minha vasta coleção de discos é por causa de coisas descobertas através de samples. Muita coisa que faz parte da minha vida que eu talvez nunca iria conhecer não fosse um trecho que ouvi em algum lugar que me levou a procurar o disco original...que me trouxe até outro...e outro...e mais um monte de outros discos antigos...só pela pesquisa.

21 de agosto de 2017

Efemérides discográficas - um resumo das atividades







Na última sexta-feira, 18 de agosto, aconteceu na ECI / UFMG o evento Efemérides Fonográficas: discos, patrimônio cultural e memória, organizado por mim e realizado pelo PPG - Ciência da Informação, com apoio da Diretoria da ECI e do grupo de pesquisa Estopim [Núcleo de Estudos Interdisciplinares do Patrimônio Cultural], coordenado por mim e pela profa. Rita Lages Rodrigues (EBA/UFMG). Fiz um breve resumo das atividades para deixar o registro e dar uma ideia de como foi a quem não pode ir. 


Pela manhã, de 9:30 – 11:30, a  Profa. Dra. Veronica Skrimsjö, da Liverpool Hope University proferiu a palestra "Popular music record collecting: aesthetics, identities & practices". A profa. abordou o universo do colecionismo de discos de vinil no Reino Unido, os perfis sociais dos colecionadores, considerando variáveis como classe, geração, gênero e práticas colecionistas, incluindo formas de organização e de aquisição. Discutiu ainda o fenômeno mercadológico da retomada de fabricação dos discos de vinil e o impacto das novas tecnologias de digitalização e acesso à música gravada em portais e redes sociais na internet.
À tarde, entre 13:30- 15:30, ocorreu a palestra: Os 50 anos de Sgt. Pepper: uma análise contextual e lítero-musical, do Prof. Dr. Lauro Meller, da UFRN. O prof. tratou do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, cujo lançamento completou 50 anos. Apresentou uma análise abrangente do ponto de vista contextual e lítero-musical, acompanhada da audição das faixas, desde a composição das canções, passando pelo intrincado processo de gravação, a confecção da capa, o lançamento e a recepção por parte de crítica e público. Dedicou-se a esmiuçar o debate em torno da caracterização de "disco conceitual" atribuída ao LP e da fortuna crítica do mesmo.
Por fim, entre  16:00- 18:00, proferi a palestra "Efemérides e patrimônio na música popular – Disco do Tênis (Lô Borges, 1972)". Discorri sobre o primeiro LP gravado por Lô Borges há 45 anos, que ficou conhecido como Disco do Tênis por sua capa. Após uma breve introdução sobre o conceito de Efeméride, partindo de sua etimologia, caracterizei o disco como artefato e explorei suas dimensões culturais, sociais e históricas. Através da apreciação de trechos e faixas, apresentei uma síntese crítica do disco ao longo de sua trajetória histórica, envolvendo a perspectiva do próprio compositor, de outros músicos e incorporando as percepções do público através de comentários publicados no portal You Tube. Por fim destaquei o Show de Reconstituição do Disco do Tênis, em que seu repertório é tocado com a maior fidelidade possível às gravações originais, discutindo as repercussões dessa proposta do ponto de vista do debate sobre memória social, mercantilização da nostalgia e a noção de atualização do patrimônio cultural.

Um balanço:
Efemérides discográficas foi acima de tudo um êxito naquilo que mais se propunha a fazer, propiciar discussões de qualidade, com maior tempo de apresentação e debate, promover intercâmbio entre áreas de conhecimento e instituições, democratizar o conhecimento atingindo público diverso, incluindo estudantes de graduação, pós, colegas professores, egressos, interessados, colecionadores, músicos, amig@s. Claro, lendo assim parece que foi muita gente. Não foi. E nem de perto o tanto que eu gostaria, mas me importa mais uma perspectiva qualitativa. Quem estava lá, estava pra valer. Participou com atenção, fez pergunta, debateu. Tive a satisfação de ter alunas da graduação em museologia acompanhando o evento o dia todo. Sem a barganha dos famigerados certificados, sem mercenarizar o aprendizado. Talvez quanto a isso eu ainda me dê por vencido. Aliás, me desdobrei horrores, fiz parte da logística, peça gráfica, divulgação online e boca a boca, insisti com quem precisou, bati foto, passei slide, fiz a minha própria apresentação. Em meio aos percalços me senti meio o Didi naquele filme dos Trapalhões com o Pelé, em que ele fantasticamente bate o corner e corre na área pra cabecear e fazer o gol. Só que no caso nada disso fiz sozinho, contei com meus colegas convidados palestrantes - o Lauro ainda fez as vezes de tradutor consecutivo, com bastante sucesso - com os bolsistas Isac Santana e Hudson Públio, com o apoio da coordenação e da secretaria do PPGCI, diretoria, contabilidade e serviços gerais da ECI. No público não dou conta de mencionar um por um mas sou grato a cada um, e como diz aquela famosa frase do mundo do blues, less is more. Sobre as apresentações em si, depois tento dar uma geral, fazer uma postagem. Abri o evento com uma fala em defesa da UERJ e terminamos com palmas que fazem a gente continuar valorizando e lutando pela universidade pública, pela pesquisa, ensino, extensão, pelo patrimônio cultural, pela arte e pela criatividade do nosso povo. Obrigado a todos que ajudaram.
 



13 de agosto de 2017

Muito barulho por uma cantiga

De modo impressionante a celeuma em torno de Tua cantiga (música de Cristovão Bastos, letra de Chico Buarque) perdura além dos dois, três dias que costumeiramente se gasta - e se desgasta - com esse tipo de embate. Talvez um dos encantos da escrita possa ser de que um texto ruim possa motivar a escrita de outro bom e vice-versa. Já se escreveu um bocado de coisas sobre a canção, entre os quais a aguda análise de Bráulio Tavares [aqui] em que eu destacaria a decantação da letra que revela toda a ourivesaria para "encaixar na métrica, na cadência, na prosódia, na acentuação, no timbre, no ritmo.", o opinativo texto de Flávia Azevedo [aqui], desencadeador de um bocado da discórdia ao dissertar sobre o 'amor datado de Chico' que escreveu 'largo mulher e filhos', ou o belo mexido [eu como mineiro posso assegurar que quando chamo algo de mexido estou elogiando] que Túlio Villaça fez [aqui] de suas próprias colocações versando especialmente sobre as relações entre estética/ética e a atualidade da canção em combinações com por exemplo a magistral decodificação operada por Mauro Aguiar "(...) é Shakespeare filtrado por uma mente borgiana emulando a sofrência num lundu impossível datado de 2017" (exclamação, eu diria no jargão enxadrístico) ou com a atenta escuta de Luís Felipe de Lima para a melodia ofídica de Bastos, que vai serpenteando e "(...) se equilibra muito bem entre a repetição e a diferença. Parece repetitiva, mas só parece. Tem muito veneno ali. Uma jóia.", entre outras preciosidades recolhidas.Recomendo fortemente a leitura de todos.

Garanto uma coisa, em nenhum outro lugar do mundo uma única canção de dois septuagenários poderá ser alvo de tanta disputa.  É cruel essa exigência da "atualidade", especialmente se projetada para sujeitos que, afinal, passaram dos 70. Como não ser datado sem também não ser forçadamente 'jovial', por exemplo? Sim, cabe identificar que o romantismo e o eu lírico da canção remetem a outro tempo e outras condições sociais das relações de gênero. Uma forma de olhar a canção é como inventário desses valores. Trata-se de exercício ficcional e não lição de moral e bons costumes. E nesse sentido a eficácia dela é justamente incorporar perfeitamente esse conteúdo patriarcal do amor romântico, recorrente nas cantigas de outros tempos com as quais ela dialoga. É pertinente problematizar, sim, mas para ser justa com o autor (como a boa crítica deve ser) não cabe essa de acusar Chico de ter 'se traído' (como fez Flávia, por exemplo), ou a cobrança de que submeta a estética a critérios 'atuais' do que deve ou não ser uma relação. E vale insistir na ressalva sobre o eu lírico e a natureza do que é o texto na canção, que obviamente comporta e comportará apropriações indébitas e imprevisíveis aos autores. É neste sentido inclusive que ser homens de seu tempo não os condiciona absolutamente - caso contrário todos os viventes de uma mesma época pertencentes a uma mesma camada social se expressariam de modo homogêneo.

Também o texto de Flávia perde de vista o movimento de Chico - e aqui junto de Cristovão Bastos - de revisitar as formas do passado. Uma canção romântica de época, feita por homens já bastante vividos, conhecedores do nosso patrimônio musical. Aqui ambos de mãos dadas seguem abraçando um projeto estético (e político) de longo arco que está no nascedouro da chamada MPB, aberto no diálogo entre os feitos da geração anterior de João, Jobim e Vinícius, e aqueles que lhes antecedendo plantaram as sementes da moderna brasilidade musical, como Pixinguinha, Noel, Ismael Silva, Cartola, entre outros gigantes. Ali se dizia que reverência e respeito aos inventores do passado não implicava em conservadorismo ou redundância.

Aliás, essas críticas que são sobre música sem falar nada de música tem esse grave defeito. Geralmente os comentários sobre canções que se expandem para além do universo de conhecedores mais zelosos costumam perder de vista a sua natureza mesma, a cópula entre o som e a palavra que gera um novo ser. Nessa celeuma toda de Tua cantiga, me entristece particularmente ver tratados inteiros que sequer mencionam o nome de Cristovão Bastos, autor da música - aliás, a melodia em especial demonstra seus predicados e qualquer um que se der ao trabalho de ouvir umas poucas vezes poderá passar dias na companhia dela, até ter seu 'ouvido interior' docemente 'assaltado' por ela. Claro a letra é o foco, claro, é do Chico. Mas tem gente aí escrevendo sem ter nem ouvido... e muita coisa poderia ser melhor compreendida com um pouco mais de atenção à música. Enfim, Cristovão Bastos merece todo nosso respeito, consideração e palmas. 

Desde a modernidade a atualidade a toda prova parece ser a cartilha, e efetivamente é o ditame do mercado que está na sua medula. Entretanto sabe-se que ela desencadeia contradições, entre elas um apreço por proteger partes do passado de sua própria fúria assassina, como recurso para garantir alguma estabilidade simbólica e, ao mesmo tempo, fornecer o parâmetro para o contraste que assegura a constatação da superação do que é 'datado'. É nessa brecha que se constitui um pilar de sustentação do arco referido acima, pois se a música popular parece ser toda organizada para o fugaz sorvimento dos acertos de temporada, paralelamente permite a constituição de acervos e coleções que transcendem - por razões umas evidentes, outras misteriosas - o império do imediato.  Curiosamente, ou até ironicamente, o ouvinte que rejeita a canção que não satisfaz sua expectativa narcísica é que é conservador e datado, esperando que o artista só lhe ofereça o que estiver assemelhado a si e ao que considera próprio de seu tempo. Aí não há espaço algum para diferença e alteridade - o contato efetivo com o passado não pode ser senão isso. Mais uma vez estamos no mundo do aquém-história, em que não vem muito ao caso considerar a experiência pregressa de outrem e nem tampouco  que qualquer nova expressão se insere em séries, repertórios, tradições. Talvez seja muito barulho por uma cantiga, mas por outro lado em meio a tanto barulho estamos precisando delas.

Lembrei-me agora, a tempo de terminar, que a primeira frase que escrevi sobre essa canção, rebatendo quem vinha dizendo que ouvi-la dava sono, que quem dormir ao seu embalo irá sonhar.