Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

20 de julho de 2016

Canções irmãs, compositores irmãos

Tempo de férias é tempo de dedicar um pouco mais de atenção ao blog. Tirar a poeira aqui e ali, arrumar links quebrados, pensar em novidades, retomar ideias que a falta de tempo não permitiu levar adiante. Enquanto isso vão pintando postagens sugeridas por conversas ou navegações internáuticas, como por exemplo o comentário que segue, do meu parceiro Pablo Castro, sobre as "canções irmãs".A curiosidade extra é que a inspiração foram canções compostas por compositores irmãos [o que pode vir a ser tema de outra postagem]. Obviamente a grande amizade entre parceiros ou companheiros de banda pode ser vista como uma forma de irmandade também, o que certamente é verdadeiro para todos os que estão mencionados no comentário:

"Lô e Márcio Borges fizeram uma espécie de sequência da balada Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, chamada Onde a Gente Está, com o mesmo tipo de abordagem.
Adoro canções irmãs. Os Beatles fizeram muitas vezes isso. George fez Here Comes The Sun e depois Here Comes the Moon, While My Guitar Gently Weeps e depois This Guitar Can´t Keep From Crying.
Paul fez Yesterday e depois Tomorrow, Blackbird e depois Bluebird. Caetano fez Você é Linda e depois Você é Minha. Gil foi além : Refazenda, Refavela, Rebento, Realce, e também Extra e Raça Humana. São canções irmanadas. São como côncavos e convexos. "


Lô Borges, Márcio Borges e Wanderson Eller em intervalo de show de Lô no Circo Voador. Rio de Janeiro, RJ - 1986. [Acervo Museu Clube da Esquina]

Acabei fazendo uma playlist com a maioria das citadas para acompanhar a leitura.


18 de julho de 2016

1a. c/ a 7a. Os cinemas cantados na música popular

Um dos grandes momentos das atividades culturais que realizei durante o último Congresso da IASPM-AL em Havana foi sem dúvida uma perambulação pela Calle 23, bem pertinho de onde estava hospedado. Ponto de grande agito cultural e movimentação, casas com música ao vivo e cinemas, como o Cine La Rampa, um cinemão, rampa acarpetada, balcão, cadeiras com encosto de madeira, lembrando muito por dentro o Cine Brasil da BH da minha infância.  

Lembrei disso tudo ouvindo a composição Cinema Rio Branco do excelentíssimo Sergio Santos , inspirada num cinema de Varginha. Aliás, vale ouvir de cabo a rabo seu disco Litoral e Interior (Biscoito Fino, 2010) mais um primor da lavra dessa figura central da música popular mineira e brasileira. 


Lembrei, logo na sequência, da belíssima Cine Baronesa, mais uma pérola do grande Guinga, desta feita em parceria com Aldir Blanc, gravada com a participação do quarteto Maogani e da cantora Fátima Guedes no disco homônimo de 2001 (saiu pela gravadora Caravelas - aqui uma resenha do disco). 


Mesmo quando os lugares se vão, a música pode perpetuá-los pelo modo como expressa seus significados lembrados através do som e pela forma como os ouvintes podem reconhecê-los. Uma pena que quase não há cinemas assim mais, mas ao menos resta a possibilidade da rememoração, se for em música então, ainda mais comovente.
Há uma lista interminável de canções que fazem referência a cinemas, esses templos modernos do deslumbramento com a imagem e som em movimento. Como é uma postagem de férias, deixo aos leitores que porventura se animarem a tarefa de encompridá-la. 

16 de julho de 2016

Salve, João Bosco

João Bosco completou 70 anos, produzindo bastante e na eminência de lançar disco novo de inéditas [leia aqui], e a data merece ser marcada. Pensei em fazer algo diferente do costume que tem sido simplesmente repostar na página de facebook as principais postagens que tratam do aniversariante da vez. Vou então reunir algum material novo e agregar um texto da minha tese. Aproveito dois vídeos de grande interesse que meu parceiro Pablo Castro compartilhou ontem. 



O primeiro é o registro histórico promovido pelo Instituto Moreira Salles, em que João Bosco executa com banda o disco Galos de Briga todo no palco e com as histórias sobre sua gravação.
 


O segundo é o clipe exibido em 1978 no Fantástico da canção Tiro de Misericórdia, poderosa crônica musicada de Bosco e Blanc sobre a ascensão de um pequeno rei do crime nos morros cariocas, prefigurando o cenário descrito pela antropóloga Alba Zaluar em seu livro Condomínio do Diabo, ou a imagem mais popularizada do livro Cidade de Deus de Paulo Lins, posteriormente transformado em filme. Esse pequeno texto de Alba dá uma base para refletir sobre o assunto [aqui]. A obra de João Bosco, especialmente em parceria com Aldir, é um inventário impressionante do cotidiano urbano e dos conflitos constituintes da realidade social brasileira.  Pinço da tese dois comentários sintéticos sobre a obra de João.



César Camargo Mariano:

“João é de uma fertilidade e de uma riqueza tão grande que não é possível prever o que virá em seguida. Ele trabalhou em cima do rock e das músicas que ouvia no rádio; em cima dessas fontes fez suas pesquisas, descobriu-se e descobriu coisas novas. Usa várias afinações no violão, o que multiplica as possibilidades do instrumento. Com tudo isso, e mais sua grande intuição de ritmo, ele consegue montar uma estrutura melódica tão boa que poderia comunicar mesmo sem letra”.


Tárik de Souza:

“Sem uma tradição ou uma escola, a música de João Bosco e Aldir Blanc é filha de todas as tradições e escolas: o Villa-Lobos e o Roberto Luna de Auxiliadora [irmã de Bosco] em Ponte Nova; os chorinhos e as músicas carnavalescas na eletrola do avô [de Blanc]; Ângela Maria, Cauby Peixoto e Dalva de Oliveira no rádio; e o ritmo importado de Elvis Presley e Little Richard, executado onde nem a eletricidade chegara. Seresta em Ouro Preto; samba e quadrinhos no Estácio. A classe média carioca e mineira observando a vida urbana e suburbana sob o prisma de milhares de influências musicais que formariam uma nova música popular brasileira”.

 

11 de julho de 2016

Bolacha completa especial - A música século XX de Jocy

No final de 2015 saiu essa matéria no blog do IMS  (que vem fazendo um belo trabalho de preservação e divulgação de nossa memória musical), muito comentada entre vários amigos cantautores da cena belorizontina. Um disco inusitado, ímpar, e que escapara a ouvidos conhecedores e atentos. Eu mesmo não ouvira falar dele. E ouvir as músicas, disponíveis via soundcloud, só aumenta o espanto. Decidi fazer essa postagem apenas com o intuito reter algo daquele espanto, pois o texto de André Kangussu [completo, aqui] cumpre a incumbência de modo tão completo que no momento não consigo pensar em nada para acrescentar. Destaco alguns trechos:

"Aos 23, idade em que lançou o disco, Jocy já era uma pianista celebrada, tendo sido solista na Orquestra Sinfônica Brasileira e se apresentado na Europa e nos Estados Unidos, sempre sob a regência de seu então marido, o maestro Eleazar de Carvalho. Sua formação nada tinha a ver com música popular, e o álbum foi sua única obra nesse campo. Suas composições futuras seriam todas eruditas e de alto teor experimental.(...)

A música século XX se posiciona de modo ambíguo em relação à bossa: ora se conforma a ela, ora a toma como um estilo a ser revisto, parodiado e deformado. (...)

Ao comentar o escasso reconhecimento de sua obra, Jocy aponta o desprestígio que enfrentavam e ainda enfrentam as compositoras mulheres, em quem, diz, só se reconhece a utilidade de musa ou de intérprete. A esse propósito, ela conta em seu livro Diálogo com cartas (SESI, 2014), recente vencedor do prêmio Jabuti, que sua peça Apague meu spotlight, de 1961, "representou a primeira apresentação de música eletrônica no Brasil", mas que foi "ignorada até hoje por grande parte dos compositores 'eletroacústicos' brasileiros". Segue dizendo que é mais comum encontrar referências no exterior de sua participação entre os pioneiros de multimídia nos Estados Unidos do que nos "compêndios de música contemporânea brasileira assinados pela inteligência acadêmica masculina do país".
A década de 1960 foi decisiva em nossa música. É tentador imaginar a carreira que Jocy teria construído em diálogo com os músicos dessa geração se houvesse prosseguido com a canção popular.
Sobrou-nos, de qualquer modo, um disco. É preciso propor que ele seja reconhecido não só pelo seu diálogo com a bossa nova ou pelo seu caráter de exceção e curiosidade histórica, mas como um álbum de música popular pleno."


3 de julho de 2016

Suavemente (ainda) lamenta...

Acabei de ver um vídeo bem bonito produzido a partir da versão de While My Guitar Gently Weeps (Harrison) que foi produzida para o espetáculo Love do Cirque du Soleil. Na verdade trata-se de uma gravação originalmente apenas em voz, violão e órgão gravada por George, acrescida de um arranjo de cordas do agora saudoso George Martin (assistido por seu filho Giles), suave e lamentoso como pede o próprio título da canção.
Com mais altos que baixos, o legado dos Beatles tem sido perpetuado e mantido em circulação através de muitos projetos como esse, que exploram bem o potencial de sua obra para cativar novas gerações de ouvintes. As possibilidades de remixagem e outros artifícios da engenharia sonora têm propiciado várias opções para cumprir tal intento, particularmente desde o projeto Anthology. Essas verdadeiras "re-produções" atualizam as canções de uma forma diferente daquela que já era proposta pela versão por outros intérpretes, ou pelas execuções ao vivo. Neste caso, é a própria gravação em sua materialidade que é alvo da atualização. Mas toda essa parafernália me despertou na lembrança o grão de simplicidade que está no princípio da composição da canção, como foi relatada pelo próprio Harrison: 
"I wrote While My Guitar Gently Weeps at my mother's house in Warrington. I was thinking about the Chinese I Ching, the Book of Changes... The Eastern concept is that whatever happens is all meant to be, and that there's no such thing as coincidence - every little item that's going down has a purpose. While My Guitar Gently Weeps was a simple study based on that theory. I decided to write a song based on the first thing I saw upon opening any book - as it would be a relative to that moment, at that time. I picked up a book at random, opened it, saw 'gently weeps', then laid the book down again and started the song." George Harrison, Anthology
Assim, a pequena fagulha da criação foi acesa pela abertura ao acaso de um livro. O fato de haver um extenso material sobre o trabalho dos Beatles circulando por aí (apesar da última e lamentável providência de retirar suas composições originais do You Tube) pode instigar todo tipo de investigações e reflexões sobre seu processo criativo. Além do depoimento de George, também contamos com takes antigos e versões manuscritas da letra, em que constam mesmo muitos versos que não ficaram na versão definitiva registrada no Álbum Branco. Por exemplo esse "I look at my watch it was 1/4 to 4 (a quarter to four)" [olho pro meu relógio era quinze pras quatro] ou  os agora mais conhecidos (já que revelados na singela gravação que figurou no Anthology):
I look from the wings at the play you are staging,
While my guitar gently weeps.
As I'm sitting here, doing nothing but ageing,
Still, my guitar gently weeps.
Gosto especialmente das duas últimas linhas, especialmente se pensarmos no peso que tem o emprego da palavra 'envelhecendo' por aqueles que eram definitivamente ícones da cultura jovem - e aqui numa atitude compenetrada, distante do clima jocoso da mccartneyana When I'm 64. A opção por reduzir a letra para dar forma final à canção parece que deixa à mostra alguma incerteza de George, até porque posteriormente, em apresentações ao vivo, ele novamente joga com essa indefinição ao mesmo tempo que propõe outras interpretações, como em sua conturbada turnê pela América do Norte em 1974 quando muda muitos dos versos e faz alguns desabafos pessoais, como quando canta "they bought and sold me" (me compraram e me venderam). É um exemplo de como uma canção pode ter seu sentido transformado no tempo, até mesmo para seu próprio autor.


I look at you all see the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
I look at the floor and I see it needs sweeping
Still my guitar gently weeps

I don't know why nobody told you
How to unfold your love
I don't know how someone controlled you
They bought and sold you

I look at the world and I notice it's turning
While my guitar gently weeps
Every mistake, we must surely be learning
Still my guitar gently weeps

I don't know how you were diverted
You were perverted too
I don't know how you were inverted
No one alerted you

Vídeo da versão de Love:




Filme da turnê 1974:

2 de julho de 2016

Nana Caymmi, francamente...

Essas preciosidades que aparecem na internet... já escrevi outro dia da importância da tv pública brasileira para a história e a memória da música popular brasileira e o vídeo a seguir só comprova.

Trechos do show Chora Brasileira, de Nana Caymmi, intercalados por depoimentos divertidíssimos de Nana e dos irmãos Dori e Danilo.