Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

29 de agosto de 2015

As muitas encarnações da canção

Às vezes passa o dia todo, uma ideia de postagem rondando aqui a cachola, depois ela dança pra lá, gira pra cá, muda, se junta com outra, vira rascunho, às vezes nem isso. Fica perdida no limbo das boas ideias que não se concretizam. Nossa, sou mestre nesse negócio, meu limbo deve ter inclusive um anexo. Fora aquela vontade enorme de escrever, vai formando o texto todo na cabeça, mas quando senta na frente do teclado, parece que o trabalho físico de digitar as letras vai afetar a disposição de passar a outro plano o que nos entrecortados pulsos elétricos que transitam pelos neurônios parece muito bem alojado por ali. Enfim, tinha a ideia antiga de escrever sobre essa situação, não propriamente das versões, das interpretações de diferentes intérpretes para uma mesma canção, mas do caso mais raro em que uma canção vai se reencarnando à medida em que os compositores mudam alguma coisa, ou quando veio à tona inicialmente como tema instrumental e ganho letra depois - ah, como não lembrar da providencial e desbocada intervenção de Nana Caymmi pra "obrigar" o Márcio Borges a fazer a letra de Clube da Esquina n° 2 ?! Mas pirei mesmo quando descobri uma encarnação anterior de A sede do peixe, intitulada então "Nem precisou mais um sol" [ouça, aqui].  A obra de Milton Nascimento está recheada de exemplos. Como entender, por exemplo, a decisão de gravar Pai Grande em 1969 e 1970, em dois LPs seguidos? Os arranjos são bem distintos, e na segunda gravação Naná Vasconcelos descortina uma verdadeira floresta primal de timbres na percussão. Letras censuradas também acabaram motivando reencarnações, mesmo se eventualmente as canções tivessem sido gravadas no exterior, com letra em inglês, por exemplo.  Alguns tem detalhes curiosos, como Cadê, letra original de Ruy Guerra censurada em Milagre dos Peixes, que foi gravada posteriormente em inglês como Fairy Tale Song  (versão da letra de Mathew Moore) e depois reencarnou em português na voz de Gal Costa.
Eis a letra. Não estou tratando a fundo a censura nessa postagem, mas rapidamente, me parece que aí deve ter sido provocada por uma leitura que passava muito pelo recorte moral, pela forma como se coloca o Eu-lírico feminino.

Meu príncipe encantado
Meu príncipe cansado
Cadê tuas botas de sete léguas?
E a tilim de Peter Pan?
E tua esperança Branca de Neve?
Cadê, quem levou?
Quem levou?
Meu príncipe esperado
Meu príncipe suado
Que é do beijo da Bela Adormecida?
E a espada de condão
E o País Maravilhoso de Alice?
Cadê, quem levou?
Quem levou?
Meu príncipe assustado
Meu príncipe queimado
Corta a noite escura desta floresta
Mata o fogo do dragão
Trás da lenda os jogos de nossa festa
Pra eu poder brincar e sorrir 



Na mesma toada temos Caxangá [Milton a tocaria ao vivo em 1983], reencarnação de Os escravos de Jó, emblematicamente gravadas por vozes femininas tão fortes e entrelaçadas com a dele, a primeira a de Clementina de Jesus, e a segunda, aí com a letra de Fernando Brant, a de Elis Regina. Aliás, antes disso existiu a encarnação "O homem da sucursal" , parte da trilha do documentário Tostão, a fera de ouro. As trilhas também são também caminhos pelos quais vem ao mundo as canções, eventualmente em forma embrionária, que depois se reencarnam. Isso aconteceu no caso de E daí? (a queda) no filme de Ruy Guerra em 1976 e depois no Clube da Esquina 2 em 1978 e Coração de Estudante no filme Jango (1984), tema de Wagner Tiso que recebeu letra de Milton pouco depois, e acabou incorporada ao imaginário nacional desde as Diretas e no subsequente luto pela morte do presidente Tancredo Neves.  
Um caso diverso, um tanto mais raro, foi Unencouter (Canção da América), nascida na temporada Losangeliana de Bituca e Brant em 1979 para gravar o LP Jorney to Dawn, e depois o Fernando mesmo fez uma letra em português para o 14 Bis gravá-la, e na sequência o Milton gravou-a em Sentinela (1980). 
Tendemos a ouvir a canção, através do registro fonográfico especialmente, como algo que alcançou uma forma final, mas nem sempre parece ser a perspectiva de seus próprios compositores. Um caso especialmente extremo disso me parece a recriação de Novena, que originalmente era Paz do amor que vem, parceria das inaugurais de Milton e Márcio Borges. 
Tô achando que tem ainda muito o que escrever mas o cansaço bate. Vou deixar assim por agora, considerando work in progress, achando que essa postagem ainda vai ter outra encarnação.

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P.S. Acontece que eu lembrei que eu queria contar uma outra história paralela, de um caso de reencarnações de que eu mesmo participei como compositor. Foi resumidamente o seguinte, escrevi, deve ter sido nos últimos anos do século passado ou primeiros desse, uma letra intitulada "Na floresta", que começava assim "Por entre as frestas das frondosas madeiras...".
Dessa letra o meu parceiro Pablo Castro começou a escrever uma canção. Poucos anos depois, quando foi gravado o disco A outra cidade, ela faria parte do repertório, com uma nova parte feita pelo Kristoff Silva, e deveria ter uma nova letra que o Pablo começou e eventualmente eu poderia completar, mas acabou não dando certo, e daí ficou a instrumental "Madeixas". Ficou uma bela instrumental. Mas eu fiquei com a ideia de ressuscitar aquela velha letra, ou pelo menos algumas das ideias dela, o tema da floresta e tal. Acabei compondo outra melodia (na verdade uma colagem de 5 partes diferentes que lembra o método de Happiness is a warm gun, de Lennon) e acabou saindo uma outra canção, Éden.
 

23 de agosto de 2015

Outras 30 mais genias do Clube da Esquina - Bônus de anúncio: Chuva na Montanha

Depois de uma longa e frutífera reunião entre autor e editor, na tarde de ontem, venho por meio desse pequeno anúncio comunicar ao respeitável público, em grande estilo, a retomada da publicação das análises críticas holísticas e finíssimas de Pablo Castro para completar a segunda série, com as 18 restantes da lista Outras 30 mais geniais do Clube da Esquina. Desenvolvemos juntos uma complexa e criteriosa tabela para tornar o processo de escolha das canções equilibrado e instigante. Através de poderosa tempestade cerebral provocada por uma nuvem cigana que pairou sobre nossas cabeças no entardecer do dia anterior, elaboramos uma pré lista de 50 possibilidades - o que demonstra tanto o peso da obra do Clube da Esquina quanto a dificuldade da tarefa de escolher as que devem entrar no rol das geniais. 
E a recarga das baterias demanda também recalibrar as linhas de transmissão, ou seja, convidar mais uma vez a todos que já acompanham a saga da lista e a novos navegantes que porventura desejem zarpar para que se aprontem, pois a nau vai deixar o cais rumo ao campo de pesca submarina dessas 18 pérolas restantes. 
Como aperitivo, chamariz, bônus, segue o texto que o Pablo acabou de escrever sobre Chuva na montanha, de Fernando Orly, gravada por Lô no LP A Via-Láctea (1979).

"O Lô Borges criou uma dicção tão clara que eventualmente outros compositores lhe faziam músicas que é difícil não acreditar que fossem de sua própria autoria, como na excelente e relaxante Chuva na Montanha, De Fernando Oly , que, entre alguns compassos de três numa música de resto 4/4, roda várias inversões dos mesmos 3 acordes, embora o efeito seja de constante progressão. Afora um ou outro mais, basicamente a canção se limita a esses três, a saber : G7M(9) , Eb7M e D7(11)(9), num tom de Sol Maior.
O elemento extraordinário desse arranjo é a soberba linha de baixo de Paulino Carvalho , conjugando perfeitamente a funcionalidade harmônica com prolixidade das linhas melódicas de forma impressionante. Considero os arranjos de baixo de Paulinho uma evolução das linhas mccartneyanas que transformaram o instrumento num protagonista expressivo das canções, só que num território harmônico mais simples e menos ambíguo do que as dicções montanhesas de Lô .Quem dera as músicas pop-radiofônicas de hoje tivessem esse nível de inventividade e originalidade."


9 de agosto de 2015

Aula de canção: Hoje é dia de El Rey

Hoje é Dia dos Pais. Eis a grande canção sobre a paternidade e o embate de gerações, no que tem de mais humano e poderoso, escrita por Milton Nascimento com letra de - não poderia ser outro - Márcio Borges. A censura que sofreu quando da gravação e lançamento do LP Milagre dos Peixes pode ter lhe cortado a carne, mas o sangue que sai dessa ferida ainda banha nosso coração. Não há como ficar incólume à audição de Hoje é dia de El Rey. O poderoso dueto imaginado entre Bituca e o mestre Dorival Caymmi ficará irrealizado, mas será imaginado a cada vez que tocar o disco.

No final dos anos 1990, enquanto fazia a pesquisa para minha dissertação de mestrado, encontrei a transcrição completa da letra original censurada na dissertação inacabada de Magda M. Alves, Autoritarismo e censura no Brasil: notas preliminares de pesquisa(póstuma). Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, Mestrado, 1978. Na época, por imaturidade, não percebi que seria importante transcrever a letra toda e dar mais destaque ao que deve ter sido um dos primeiros extratos de pesquisa que conseguia trazer algo dos arquivos da censura. Hoje o acesso é bem mais amplo, pois estão sob responsabilidade do Arquivo Nacional. Recentemente, uma matéria publicada no jornal O Globo abordou o assunto em detalhe [aqui]. Sendo assim reproduzo o trecho da minha dissertação escrita há quinze anos atrás com um misto de satisfação por ver que as pistas que reuni ali se mostraram importantes para os estudos sobre a censura e a obra de Milton e do Clube, e arrependimento porque no afã de tratar de muitas coisas a gente às vezes peca por não explorar mais detidamente algumas das evidências que encontramos.

A letra completa se encontra no blog Pérolas aos povos, do qual reproduzo:

 
Filho – Não pode o noivo mais ser feliz
Não pode viver em paz com seu amor
Não pode o justo sobreviver
Se hoje esqueceu o que é bem-querer
Rufai tambores saudando El Rey
Nosso amo e senhor e dono da lei
Soai clarins pois o dia do ódio
E o dia do não são por El Rey

Pai – Filho meu ódio você tem
Mas El Rey quer viver só de amor
Sem clarins e sem mais tambor
Vá dizer: nosso dia é de amor

Filho – Juntai as muitas mentiras
Jogai os soldados na rua
Nada sabeis desta terra
Hoje é o dia da lua

Pai – Filho meu cadê teu amor
Nosso Rey está sofrendo a sua dor

Filho – Leva daqui tuas armas
Então cantar poderia
Mas nos teus campos de guerra
Hoje morreu a poesia

Ambos – El Rey virá salvar...

Pai – meu filho você tem razão
Mas acho que não é em tudo
Se o mundo fosse o que pensa
Estava no mesmo lugar
Pai você não tinha agora
E hoje pior ia estar

Filho – Matai o amor, pouco importa
Mas outro haverá de surgir
O mundo é pra frente que anda
Mas tudo está como está
Hoje então e agora
Pior não podia ficar

Ambos – Largue seu dono e procure nova alegria
Se hoje é triste e saudade pode matar
Vem, amizade não pode ser com maldade
Se hoje é triste a verdade
Procure nova poesia
Procure nova alegria
Para amanhã...





"O disco apareceu com a metade das músicas instrumentais, mas vocalizadas de maneira a deixar explícita sua natureza de canção e a censura das letras. O encarte trazia mesmo o crédito aos letristas, de maneira a explicitar de forma brusca aquele corte profundo. Os gritos de Milton traziam em sua crua selvageria um sinal da rebeldia ancestral que as palavras muitas vezes não lograrão descrever. SOUZA fala em uma verdadeira “estética do silêncio” que traduz a generosidade do cantor[1].
A gravação de Hoje é dia de El Rey preservava um enigmático “filho meu...”, como se as palavras, privadas de seu significado original, estivessem ali apenas para deixar evidente que houvera censura. A letra censurada trazia a descrição de um presente negro, sem amor e poesia, que deveria ser superado pela luta:  “(...)Se hoje é triste a verdade/procure nova poesia/ procure nova alegria/para amanhã (...)”[2]. O próprio autor Márcio Borges repara tratar-se aí da comum imagem do “dia que virá”. O que estaria sendo censurado? Talvez, as referências claras à luta armada, soldados, guerra. Mas o que realmente chama a atenção na letra é sua forma de diálogo, que retrata o conflito entre duas gerações, duas mentalidades. A luta entre o pai e o filho torna-se representação alegórica do conflito social entendido pelo prisma geracional. Podemos ver El Rey como a encarnação do governo, que o pai apoia e contra o qual o filho se rebela, inclusive através de armas. A canção procura assim situar os conflitos próprios daquele momento no Brasil num quadro muito mais amplo, de um conflito geracional." (GARCIA, 2000).




[1] SOUZA, Tárik. “Sem palavras”. Veja. São Paulo: Abril, 11/06/1973, p.76.


[2] BORGES, Márcio. op.cit., p.304.

3 de agosto de 2015

A mística do circo e a canção popular

Enquanto encerro o "expediente" no último dia de férias, considerei imperativo fazer ao menos uma postagem para celebrar a marca de 60 mil acessos do Massa Crítica Música Popular, mesmo tendo decidido que dessa vez precisava evitar transformar o tempo de descanso em trabalho, por mais prazeroso que este possa ser.
Ao mesmo tempo uma nota melancólica vai entrar, uma vez que pensei essa postagem também como pequena homenagem. Numa dessas coisas incríveis e assustadoras da vida, estava hj na praça com queridos amigos (+ nossas respectivas filhas rsrsrs) e fiz um comentário casual sobre o Orlando Orfei, sem saber que ele havia falecido, como eles imediatamente me informaram. 

Outras coincidências da vida me fizeram pensar no assunto "circo" como tema dessa postagem. É que na última quinta tive o privilégio de assistir ao espetáculo da Sinfônica Pop, em que a OSMIG, sob a regência especialmente convidada do grande pianista e maestro Nelson Ayres, uniu-se à distintíssima cantora Mônica Salmaso para uma apresentação que combinou requinte no repertório, excelência na performance, mas também informalidade, calor, sentimento. E dentro dessa maravilha de espetáculo a Mônica cantou quatro pérolas da obra em parceria de Edu Lobo e Chico Buarque, O grande circo místico: a canção título, Ciranda da Bailarina, A história de Lily Braun e, num emocionante "triz", Beatriz (que vem a ser o nome da filha dos meus amigos Mariana e Léo que estavam comigo na praça). Essencialmente, creio que poucas vezes se viu e ouviu uma intérprete aliando tão bem técnica e sensibilidade. Simultaneamente, por esses mesmos dias acabei de ler a bem acabada biografia musical de Edu Lobo, São bonitas as canções, escrita por Eric Nepomuceno. Concordando essencialmente com o que escreveu o jornalista Mauro Ferreira em seu blog, o livro não ultrapassa a barreira da narrativa consentida, mas faz bem aquilo a que se propõe, oferecendo ao leitor uma boa apresentação do trabalho e da carreira de Edu. Foi justamente o capítulo que traz alguns detalhes sobre o surgimento e o modo de trabalho da parceria Edu/Chico, especialmente dentro do projeto do Circo Místico, um dos que mais gostei no livro. 
Enfim, uma coisa que me fascina nas canções são certas recorrências e tradições temáticas, que se estabelecem de repente num determinado gênero, mas por vezes também para além deles. Podemos citar o automóvel para o bom e velho rock and roll, o mar na bossa nova, os corpos celestes, especialmente o sol e a lua, em diversos gêneros, e por aí vai. O circo, especialmente nesse formato próprio da modernidade, de espetáculo itinerante que transita dos grandes centros ao interior, que vara o país, que fabrica através de toda uma narrativa e uma atividade artística e atlética concatenadas a atmosfera do sonho, do fantástico, da surpresa e da ilusão,da ultrapassagem dos limites do corpo e da mente, enfim, o circo merece ocupar os tratos à bola dos compositores populares. Além do Circo Místico poderíamos enfileirar um sem número de canções, joias como Gran Circo, de Milton e Márcio Borges, ou Being for the benefit of Mr. Kite, em que John Lennon literalmente musicou o pôster de anúncio de um espetáculo circense. Eu mesmo já me incumbi de escrever uma, chamada Parada no ar, sobre a qual depois devo contar alguma coisa. 
Enfim, que ecoem duradouras palmas ao sr. Orlando Orfei, que no picadeiro da memória de todos nós ele continue apresentando as atrações que tanto marcaram a infância da gente, pois seu nome é sinônimo de circo.