Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

30 de maio de 2015

O contemporâneo em outro tempo

Minha patente preferência pela canção, que justifico em parte pelo imenso peso histórico e cultural dessa forma em terras brasileiras, em parte pela questão de ofício mesmo, faz uma pausa para divulgar essas pérolas que encontrei nas errâncias pelo mar digital, a partir de um link postado num grupo de facebook dedicado ao Clube da Esquina pelo Matheus José Mineiro (agradecimento!). Trata-se dos discos de Nivaldo Ornellas e Robertinho Silva para a série M.B.P.C.

"Entre 1978 e 1981, através da série M.P.B.C. - Música Popular Brasileira Contemporânea, a Phonogram-Polygram se propôs a mostrar a gama diversificada de tendências a época reveladas na música instrumental feita no Brasil, por profissionais instrumentistas, compositores e arranjadores, dispostos a encontrar o seu espaço dentro da música popular brasileira, ampliando o seu campo de ação e reconhecimento. O mais interessante dessa série foi mostrar a música instrumental brasileira como uma expressão artística disposta de contemporaneidade, uma forma de arte contribuinte para a contemporaneidade da época -- inclusive como uma arte gráfica muito bem elaborada por um artista da época chamado Aldo Luiz. Bico de Pena. O produtor Roberto Santana Aramis Millarch conta, em entrevista, como funcionou a empreitada. Apesar da subsidiária da Phillips ser uma empresa que visava o lucro, o lançamento da série acabou  funcionando mais como forma de engajamento documental do que como forma de se obter lucros consideráveis, haja vista a música instrumental brasileira não ter um mínimo da competitividade comercial de um álbum de Roberto Carlos, por exemplo. Atualmente, os poucos exemplares que sobraram da tiragem limitada lançada pela Phonogram-Polygram são raríssimos ítens de colecionadores ou pepitas perdidas em sebos e casas de vinis usados. Ao todo, foram gravados 11 álbuns." da apresentação do Wozzeck Magazine, blog criado pelo músico e pesquisador musical Vagner Pitta. [completo, aqui]

Talvez "contemporâneo" seja um dos conceitos mais truncados e flexíveis que se aplica desde a modernidade. Na nossa forma particular de experimentar o tempo, ele se recobre com diferentes acepções. A princípio, nos lança a ideia de simultâneo, concomitante, daí pensarmos o contemporâneo associado ao presente de quem o identifica como tal. Entretanto, se o contemporâneo é tomado de um ponto de vista comparativo, no regime de historicidade tipicamente moderno que identifica no progresso o modo preferencial de perceber o tempo, é possível criar a sensação que ele remete à novidade, à emergência do amanhã dentro do hoje. O contemporâneo, na série em questão, remete a esse "ar de novidade", traduzido por exemplo na parte gráfica, nas letras com tipos "computadorizados" e desenhos remetendo a paisagens fantásticas. Assim, numa percepção fatiada e escalonada do tempo foi possível considerar o "contemporâneo" como sucessor do "moderno". Daí provavelmente se depreende essa leitura, quando se fala em arte, por exemplo, embora surge imediatamente a dificuldade a partir da vertiginosa transformação na experiência social que inclui o fenômeno da "compressão do espaço-tempo" que tornou problemática a concepção progressiva tipicamente moderna. Assim, curiosamente, sob esse ponto de vista podemos identificar um "contemporâneo" datado, que desde o nosso presente se localiza no passado. Contemporâneo torna-se um termo ambíguo, porém talvez esteja aí a qualidade que lhe permite continuar circulando pelas bocas e cabeças. Poderemos eventualmente considerar, desde as possibilidades de apropriação que detemos num dado momento, que essa música soa com "atualidade" para nossos ouvidos.


Ficha técnica:
NIVALDO ORNELAS - Série MPBC
1978 Phonogram (6349 375)

1 - As Minas de Morro Velho (Cid Ornelas - Nivaldo Ornelas)
2 - Portal dos anjos (Roberto Fabel - Nivaldo Ornelas)
3 - Arqueiro do rei (Nivaldo Ornelas)
4 - Ninfas (Nivaldo Ornelas)
5 - Querubins e Serafins (Nivaldo Ornelas)
6 - Sorrisos de uma criança (Nivaldo Ornelas)
7 - Cidadela (Jairo Lara - Nivaldo Ornelas)
8 - O que há de mais sagrado (Nivaldo Ornelas)

arranjos e regência - Nivaldo Ornelas
arranjo da faixa 4 - Wagenr Tiso

Nivaldo Ornelas - saxofone tenor e flautas
Mauro Senise - flautas
Raul Mascarenhas - flautas
Cacau - flautas
Zé Carlos - flautas
Ricardo Pontes - flautas
Jairo Lara - flautas, violão de aço
Aécio Flávio - flauta doce
Marcio Montarroyos - piano, flugel horn, mellowphone
Wagner Tiso - piano acústico e orgão na faixas 5 e 8
Helvius Vilela - piano acústico e orgãos
Toninho Horta - guitarra e violão
Jamil Joanes - baixo elétrico e violão de 12 cordas
Luis Alves - baixo acústico e percussão
Pascoal Meirelles - bateria e tímpanod
Chacal - percussão
Chico Batera - percussão
Robertinho Silva - percussão
Robertinho Silva - bateria nas faixas 7 e 8.
Paulinho Braga - percussão
Paulinho Braga - bateria (faixas 1 e 2)
Pascoal Ubiratan - percussão

cordas:(Quarteto da Guanabara)
José Alves e Aizik - violinos
Frederick - viola
Watson Cus - cello

coro infantil - Tata, Flavinho, Nana e Carla
coro masculino - Edson Bastos, Max e Waldir Jamil
coro feminino - Suxzana, Nilza, carla e Nana

participação especial - coral da Pro-Arte (regente - Jaques Morelembaum)





Ficha Técnica:
MÚSICA POPULAR CONTEMPORÂNEA (MPBC) - ROBERTINHO SILVA
1981 - LP 1981 Polygram (6328 229 - Série Azul) (azul*09-2003)

Lado A:
1 - A CHAMADA - [3.26] Milton Nascimento
2 - O VÉIO NO SOL -[4.58] Egberto Gismonti
3 - BALAFON - [3.34] Gilberto Gil
4 - SONATA DE BATERA - [6.47] Nivaldo Ornellas

Lado B:
1 - BIÔNICO – [5.24] Jota Moraes
2 - CORAÇÃO - [4.46] Wagner Tiso
3 - FALANGE DOS TAMBORES – [2.46] Robertinho Silva e Nelson Ângelo
4 - SÃO JOSÉ 887- [6.12] Robertinho Silva e Filó

Arranjos
WAGNER TISO - A1 / A3 / B2 / B4
EGBERTO GISMONTI - A2
JOTA MORAES - B1
ROBERTINHO SILVA - B3

Arranjo vocal
NELSON ANGELO - B3
Voz Solo
ALEUDA - A1 / B4
Vocais
DANILO CAYMMI
NELOSN ANGELO
NOVELLI
FERNANDO LEPORACE - B3
Baixo Acústico
LUIZ ALVES
Bateria
ROBERTINHO SILVA
Percussão
ROBERTINHO SILVA - A1 / A3 / B3 / B4
ALEUDA - B4
CIDINHO - A3 / B4 / B3
NANA VASCONCELOS - A4
LUIZ ALVES - B3 / B4
NOVELLI - B4
CHICO BATERA - B3
UBIRATAN A3 / B3
Violão
EGBERTO GISMONTI - A2
Piano Elétrico
ANDRE DEQUECH A4
WAGNER TISO - A1 / B2 / B4
MARCOS RESENDE - A3
Piano Acústico
EGBERTO GISMONTI - A2
JOTA MORAES - B1
WAGNER TISO B2 / B3
Sax Alto
MAURO SENISE - B1 / B2
OBERDAN - A2 / A3 / B4
Sax Tenor
RAUL MASCARENHAS - B2
ZÉ CARLOS - A2 / A3 / B4
Sax Barítono
LEO GANDELMAN - A2 / A3 / B4
Flautas
MAURO SENISE - A2 / A3
ZÉ CARLOS - A3 / B4
Sax Soprano
NIVALDO ORNELLAS - A4
RAUL MASCARENHAS - B2
Trompete
PAULINHO - A2 / A3 / B4
BIDINHO - A2 / A3 / B4
Trombone
SERGINHO - A2 / A3 / B4
RAUL DE SOUZA - B4
Cello
JAQUES MORELEMBAUM - A1
Marimba
JOTA MORAES - A3
Guitarra
RICARDO SILVEIRA - A3 / B1
HELIO DELMIRO - B2

Obs: A música "Falange dos Tambores" foi baseada em "Maria Três Filhos" música de Milton Nascimento e Fernando Brant. A música "São José 887" é dedicada a Moacir Santos
Agradecimentos Especiais a Wagner Tiso, Luis Alves, Paschoal Meireles, Chico Batera, Loca, Túlio Mourão, Aleuda e a todos os músicos que participaram deste LP.


As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 3: Falso Inglês

Terceira selecionada: FALSO INGLÊS, de Toninho Horta e Fernando Brant. Sensacional aqui como o Toninho, numa forma bem simples , praticamente só com um A e um B, e poucos acordes, consegue algo tão original e de efeito tão marcante. Fascinante como uma subdominante com baixo na terça pode ter um efeito sutil e grandioso. 

E Fernando Brant, numa de suas melhores letras, exerce aqui um humor que ele não atrevia a destilar em suas parcerias com Milton e, de quebra, dá um tapa de luva em quem ainda defendia (e defende) que o inglês é uma língua mais musical, ainda que não se saiba bulhufas do que trata a letra. 

Sem o menor pudor, ele faz algo que nenhum Chico, Caetano ou Gil fez: todo um refrão cantado numa língua inventada! E a história, tão típica de um país submetido ao domínio imperial da indústria cultural anglo-saxônica, devolve uma flor com cheiro de irreverência aos ditames do inglês de Copa do Mundo que querem fazer nossos taxistas "aprender" pra não fazer feio num evento que não dura mais do que um mês - Salve o Falso Inglês !!!




FALSO INGLÊS (Toninho Horta e Fernando Brant)

Eu ouvi Paul Anka
Um Dia
Eu ouvi Ray Charles
Bill Halley

No rádio eu sempre ouvi
mas não entendia nada de inglês
mas eu guardava o som
toda melodia sem poder cantar

Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês
Gene Kelly
canta e dança sem eu entender
Eu via Fred Aster
legenda não serve pra poder cantar

Eu tive que inventar um jeito de cantar inglês
Beatles, Dylan
ouvi uma vez e eu cantei

Eu lembro que inventei 
todos se encantaram com meu falso inglês

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Um uoraniusi onaruei olefitiudei
Wonder Woman
Lairanidamudiseiomai

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Notas do editor:

1) Na postagem O que seria transculturação? Ouça essa canção... apresento algumas reflexões sobre Falso Inglês do ponto de vista dos estudos sobre trânsitos culturais.
2) Essa canção foi lançada no LP Terra dos Pássaros, sobre o qual você pode ler uma postagem especial da seção Bolacha Completa.

Violão Ibérico, trabalho de excelente qualidade contanto a história do instrumento que cruzou o Atlântico e tem um papel fundamental na história da música popular no Brasil, onde também foram escritas algumas das mais marcantes páginas de sua própria trajetória no tempo. Além do livro foram produzidos vídeos inestimáveis, apresentando o depoimento de alguns dos músicos que já deixaram a marca de suas notas, dedos e criação definitivamente impressos quando se trata desse assunto. Separei, a título de amostra, três vídeos de três "casos sérios" da banda de cá do Oceano:
Guinga, João Bosco e Toninho Horta. Acompanha a descrição disponibilizada via You Tube.


"Estão todos na contramão." Guinga fala sobre o estilo de tocar e as influências de diversos craques, como João Gilberto, Nelson Cavaquinho, Toninho Horta e Raphael Rabello. E também da forma como alguns destes e outros tantos mestres marcaram a sua carreira. "Eu odeio partitura!"



"Depois de falar sobre sua história com o violão, Toninho Horta toca Meu canário vizinho azul, destacando detalhes do processo de composição da música."



"João Bosco fala sobre o processo de composição da música O Ronco da Cuíca, fruto de sua parceria com Aldir Blanc, enquanto toca o samba neste vídeo exclusivo".






26 de maio de 2015

Sidney Miller - Não se vive mais do que uma vez

As navegações de hoje começaram pela ótima postagem da Rádio Batuta do IMS e me levaram ao site do Projeto Almirante da Funarte e a obra, pequena mas fulgurante, do compositor Sidney Miller. O 3° discos, que tinha me escapado até aqui, me chamou a atenção pela sonoridade que me remeteu muito ao Som Imaginário e ao Clube da Esquina, e acabei encontrando informações (que não confirmei como gostaria) de que tocaram no disco Toninho Horta, Robertinho Silva, Luiz Alves, além do saudoso Tenório Jr. A internet hoje resolveu ficar particularmente lenta aqui, decidi então apenas reunir algum material interessante e embrulhar no pacote.

"Um dos nomes mais talentosos da geração de cantores e compositores brasileiros surgidos na década de 1960, o carioca Sidney Miller é o tema deste videodocumento, cuja data de lançamento coincide com o dia em que se comemoram 70 anos de seu nascimento: 18 de abril de 2015. O compositor – falecido em 1980, aos 35 anos – é relembrado através de depoimentos como os do cantor Miltinho (MPB4), do produtor Augusto Pinheiro (amigo pessoal de Sidney) e do grupo Casuarina, que presta homenagem a Sidney interpretando o samba Me dá um dó, de sua autoria. Outras composições incluídas nesta homenagem de 12 minutos são a marcha-cantiga O circo (sucesso na voz de Nara Leão), a toada A estrada e o violeiro e os sambas Meu violão e É isso aí." [assista completo, aqui]

"O que é praticamente desconhecido da maioria é que Sidney Miller foi um instrumentista dedicado e, especialmente, um letrista excepcional, equivalente ao nível de Chico Buarque e Noel Rosa, mas com uma carreira que seguiu o rumo do quase anonimato. Ele lançou apenas três discos de estúdio, "Sidney Miller" (1967) e "Brasil: do guarani ao guaraná" (1968) e a obra tema deste texto, "Línguas de fogo" (1974), pela gravadora Som Livre. Na capa cinzenta, ele aparece muito diferente do jovem tímido de terno que se destacou nos conhecidos festivais de MPB na televisão durante a década de 1960: o estilo é totalmente hippie, com cabelos compridos e as típicas calças boca-de-sino da ocasião." (do texto de Leonardo Guedes, completo aqui)

Línguas de Fogo (1974)



Pois é, pra que? (em Do Guarani ao Guaraná, 1968)




Sidney Miller (1967)



E o show de Joyce Moreno executando todo o disco de 1967 (acesse aqui).




24 de maio de 2015

As 30 mais geniais do Clube da Esquina - 2: Via Láctea

Vamos prosseguir com VIA LÁCTEA, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, música do álbum homônimo de 1979. Bela canção em 6/8, levada bastante frequente em músicas de Lô e Beto, sobretudo ( Rio Doce, já citada aqui, é bem próxima disso, mas talvez seja mais exato caracterizá-la como 12/8). A melodia de Lô faz uma ponte entre as tendências McCartneyanas e Jobinianas de uma forma magistral, fazendo a harmonia parecer mais simples do que é na verdade. 

Naturalidade e sofisticação são duas coisas que pouquíssimos compositores podem atingir, e é o caso de Lô nessa canção. A letra, mais uma vez de Ronaldo Bastos, é uma variante da temática 'viagem' , desta feita com metáforas cósmicas, e ícones como carrossel, pão e mel, picadeiros, primaveras ... bastante concretista essa letra, a la Caetano, mas com a marca indelével do ethos do Clube: o sonho.



VIA LÁCTEA (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar

Caravela, pão e mel
Segue o circo a rolar
Picadeiros, primaveras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia viver
Na espuma do mar

E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou...

Que navega no céu
Que navega no ar
Grão de areia bailar
Lá no fundo do azul

E anda que nem bola
Como a vida
Quando quer brotar
Rola como anda
Que nem fonte de calor...

Barricadas, cordilheiras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

Aventuras, cicatrizes
Segue o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

As 30 mais geniais do Clube da Esquina -1: Rio Doce

Começo então por RIO DOCE, de Beto Guedes, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos. Gravada primeiramente como instrumental, e só com a parte A, no disco Sol de Primavera, ela foi desenvolvida com uma sensacional parte B, de Tavinho, contrastante sinuosa e de modulações inesperadas, mas com o mesmo desembocar solar que é tão característica das composições de Beto. Participação vocal da Joyce!



RIO DOCE (Beto Guedes, Tavinho Moura & Ronaldo Bastos) 

Vai a me levar como se fosse
Indo pro mar num riacho doce
Onde ser é ternamente passar

São vidas pequenas das calçadas
Onde existir parece que é nada
Mas viver é mansamente brotar

Muito prazer de conhecer
Muito prazer de nessa rua ser seu par
Ao partilhar do teu calor
Você liberta a primeira centelha
Que faz a vida iluminar

A correnteza me levou
Me apaixonei em todo cais que fui parar
Cada remanso um grande amor
Por esses breves eternos momentos
Que tive o dom de navegar

São vidas dos belos horizontes
Gente das mais preciosas fontes
Onde ser é ternamente brotar
Vai cantando as voltas do moinho
Onde a beleza teceu seu ninho
Mas viver é mansamente passar






22 de maio de 2015

INTUIÇÃO

Ainda estou sob forte impacto do memorável show de meu parceiro e amigo querido Pablo Castro ao lado do brilhante e "incontornável" (como diria o Pablo) Flávio Henrique no excelente Projeto "Dois na quinta" do BDMG Cultural, que teve lugar. O entrosamento dos dois no palco, junto a uma cozinha acertadíssima, e uma impecável seleção do repertório de ambos, entrelaçado de forma perfeita, resultou num espetáculo sensacional, e pareceu mesmo que os dois já fazem esse show há anos. Quem não viu peça pra ter outro. Aliás, quem viu também vai pedir. Contente de ver nossas parcerias apresentadas assim, em alto nível, com grande reconhecimento do distinto e estimado público que lá esteve. Fora as preciosas participações da Leopoldina e do Pedro Morais. Presenças especiais, fora a família que compareceu para celebrar o aniversário da minha filha no show do padrinho. 
Ouvir uma música desse apuro sendo tocada, ouvir as canções que compus em parceria com o Pablo junto de outras dele e do impecável repertório de canções do Flávio e respectivos parceiros, fora a recém parida parceria dos dois, me encheu de contentamento.
Todas essas circunstâncias felizes acabaram me incentivando a escrever esse texto, por muito protelado, sobre uma canção tão única e marcante como é Intuição. Antes de tudo, por ser uma "quarceria", um tanto rara para a forma como costumo compor, e sendo os outros 3 parceiros compositores músicos que admiro imensamente, pessoas por quem tenho grande estima, camaradas mesmo, cada qual por um modo e ritmo próprio. Falo de Pablo Castro, Kristoff Silva e Makely Ka, os grandes responsáveis por liderar um projeto que riscou os horizontes belos, porém eventualmente aquietados, da cena musical belorizontina e mineira, com consequências profundas para a sequência dos trabalhos independentes em nossa cena, e, sem medo de lauda desmedida, impacto para muito além das Alterosas: A outra cidade (um pouco mais dessa outra história, aqui, aqui, aqui). 
Sendo assim, adianto que não poderia, nem se eu tentasse, contar toda a história de Intuição. Prefiro e creio mais adequado fazer um exercício, recolher algo de reminiscência do impulso que deu origem a alguma coisa que foi ali uma espécie de crisálida, que depois de um tempo voltou como uma borboleta pronta, esvoaçando e pousando no meu ouvido. Estava ali contemplando aquela forma embrião, aquela primeira célula, aquelas notinhas se insinuando nas cordas do violão do Pablo. Pelo que me lembro era aniversário dele, uma festa no apê da Zoroastro Torres, muita, muita gente. Muita conversa animada. Não sei se ele já havia tateado aquela introdução antes, ou se foi ali, no meio do caos, que a larva se esgueirou pela madeira à procura de folhas. Sei que eu encontrei o papel, um dos vários cadernos de rascunho que mantínhamos ali entrando e saindo da vista. Então, literalmente, o vento soprou no meu ouvido: in-tu-i-ção. Enquanto o embrião de uma valsa brasileira se formava, em divisões celulares, foi surgindo o enredo, que era o desvendar de uma traição. 
Intuição
pedi pra ver no bolso a carta sem endereço
falso penhor de amor
Intuição
perdi de vez no rosto o beijo sem recomeço
pouco pendão de valor

Nem consigo mais recuperar nos rabiscos que restaram comigo o restante da sucessão de intuições e outras palavras que lhe sucediam. Mas ali estava uma história, de certa forma conandoyliana, pontuada das pistas do adultério que iam sendo descobertas rumo à fatídica ruptura. Ninamos eu e o Pablo a valsinha por ali, mas em algum momento ela parou de engatinhar, foi ficando em pé, ganhou outra parte musical composta pelo Kristoff. Eu tive, a partir daí, inúmeras oportunidades de dar sequência à letra, mas não achava o sossego necessário para cevar a criança. Em maio de 2002 nasceria minha filha Maria Luiza, outra criança que eu precisava ninar. Foi portanto por uma necessidade de sobrevivência, por um impulso da criação, que o Makely tomou pé da tarefa de levar adiante o desenvolvimento da cria, acrescentando uma dimensão psicológica, machadiana, desse entrevero emocional, nos conduzindo a todos pelos meandros da relação do fictício par, belamente arrematado numa resolução musical e lírica de retorno ao descanso, metanarrativa econômica em direção ao repouso. 
Salvo pelas peças que a memória às vezes prega, eu ouviria essa canção assim, e a soube definitiva, na casa da Alda Resende, já então escalada para interpretá-la - e a borboleta encontro na voz dela o melhor pouso. Ao mesmo tempo que me fascinou o resultado final, fiquei aqui e ali ainda apegado a uma ou outra palavra, porque ainda não entendia bem como eu tinha ficado naquele parto. Mas ela estava ali de asas abertas, pronta pra voar. 
Com o tempo eu fui entendendo que aquela filha de muitos pais (e naquele momento a paternidade para mim era algo imensamente concreto) era feita (e perfeita) daquele jeito, trazendo os traços de seus genitores de uma forma que era única, irrepetível. A gravação com tudo que tem, com Alda, com arranjo de Flávio Henrique, confirmou. O reconhecimento e a adesão apaixonada dos ouvintes, desde então, faz lembrar o conto de Bradbury, em que a vida de uma simples borboleta - que nele se extingue - guarda o potencial de afetar a história do mundo. 
Voltando ao começo, ontem uma das coisas que me emocionou foi a minha filha, completando 13 anos, cantando todas as nossas, inclusive Intuição. Meu coração bateu, sem nada mais se opor.


Intuição (música de Pablo Castro e Kristoff Silva; letra de Luiz Henrique Garcia e Makely Ka)


Intuição
peguei pra ver no bolso a carta sem endereço
frágil esboço de amor
Confirmação
pedi pra ler na bolsa a letra que desconheço
resta um pedaço de flor
Na discussão
perdeu-se a direção
então nem se sabia o rumo a se retomar

Desilusão 
provei amargo o gosto e enxugo em seu próprio lenço
o sumo que sai no suor
Consumação
ardeu de vez no rosto o beijo que não mereço
sela o batom traidor
Sem intenção
talvez todo esse tempo eu tenha sido até um pouco omisso, sim
retrátil
Só impressão
ou em sua versão não passo de um mero compromisso
circunstancial


Vou reconsiderar, rever conceitos, talvez haja um jeito
de te perdoar, de reconciliar, pra que volte o amor
e cesse essa dor
e não seja só...
cada um por si / ambos a sós / se falo por mim / peço por nós


Mas por precaução
se ouvir um não disfarço e finjo que nem conheço
"ora me faça o favor"
Indecisão
um coração que pulsa tenso em seu descompasso
tentando se contrapor
À recordação
uma canção que ouço e me devolve ao começo
sem nada mais se opor




20 de maio de 2015

Fredera em voo solo

Faço questão de não deixar passar em branco essa data, 70 anos de Fredera, um dos mais inventivos guitarristas brasileiros, e uma cabeça pensante também, que mergulhou fundo nas inquietações dos anos incríveis e de chumbo. O Som Imaginário, muito além de um conjunto de acompanhamento para Milton Nascimento, ganhou asas e decolou em voo próprio, como bem ilustra a capa de seu primeiro disco. Como já escrevi alguma coisa sobre o grupo por aí [aqui], deixo o espaço pra mostrar Fredera em voo solo (Aurora Vermelha, 1981), seja com sua guitarra expressiva, sua visão musical, e sua esgrima com palavras, desenhada com cortante precisão nessa entrevista concedida ao blog Virtuália. Os elogios vocês verão que são todos merecidos, mas o melhor é ler e ouvir registros ímpares como esses.


17 de maio de 2015

Grandes encontros da Música Popular [Great encounters of Popular Music] - Milton Nascimento, Naná Vasconcelos e James Taylor

"Outro jeito de dizer coração e alma (heart and soul) é Milton Nascimento". David Sanborn.

Grande definição. Graças à indicação do amigo e colega pesquisador João Marcos Veiga, futuro mestre em História Social da Cultura, assisti a esse vídeo do programa musical Night Music*, de 1988, cujo mote era justamente promover encontros interessantes entre grandes músicos populares. Aqui vemos Milton Nascimento, Naná Vasconcelos e James Taylor, cujo entrosamento fica evidente desde o início. Naná e James Taylor depois viriam a executar justamente algo desse repertório juntamente com Milton no disco Angelus, e foram parte dessa verdadeira constelação de estrelas que Bituca reuniu para fazer um de seus melhores álbuns desde a década de 1980.




*Sunday Night, later named Michelob Presents Night Music, is a late-night television show which aired for two seasons between 1988 and 1990 as a showcase for jazz and eclectic musical artists. It was hosted by Jools Holland and David Sanborn, and featured Marcus Miller as musical director. Guests included acts such as Sonny Rollins, Shinehead, Sister Carol, Sonic Youth, Joe Sample, Slim Gaillard, Pere Ubu, Pharoah Sanders, and many others. In addition, vintage clips of jazz legends like Thelonious Monk, Dave Brubeck, and Billie Holiday were also featured. The show also featured a house band of Omar Hakim (drums), Marcus Miller (bass), Philippe Saisse (keys), David Sanborn (sax), Hiram Bullock (guitar), and Jools Holland (piano). The show often allowed its guests ample time to explain the origins of their sound, meaning of songs, etc. It also provided a national audience for lesser known acts (like Arto Lindsay's band The Ambitious Lovers). Hal Willner was the music coordinator, responsible for the interesting musical mix-and-matching that took place on the show. Por crosscurrentjazz, via You Tube.

13 de maio de 2015

Upa, critatividade!

Este texto, gentilmente cedido pelo Sérgio Santos, que além de nos brindar com uma obra musical profícua, deslumbrante, de quebra lança reflexões de uma pertinência e elaboração que dispensam comentários, basta ler. Aqui ele discorre - partindo de magnífica performance de Elis Regina na tv francesa em 1968, acompanhada de feras como Roberto Menescal e Erlon Chaves - sobre o problema da criatividade e da excelência no cenário musical, considerando suas transformações nas últimas décadas. Para curtir e pensar:
"Vendo esse video, me dei de cara com a passagem do tempo. Peço que o assistam antes de ler o post.



E aí, viram? Isso aconteceu em 1968, há 47 anos. Quase meio século! E Elis, linda, estava na flor dos seus 23 anos. Edu Lobo, autor da música tinha 25. Pensando na música, esse conteúdo aí beira a perfeição, gravado ao vivo em algo que parece uma mera passagem de som, na França. Arranjo mortal, executado milimetricamente, com um suingue arrasador. E vai-se esperar o que de uma intérprete como Elis, no auge da gana musical da juventude, com um bando de feras ao lado, e ainda cantando Edu? Pois bem, para mim está aí o exemplo mais cabal do quanto andamos para trás. Será que a imensa maioria dos jovens de 20 e poucos anos que pretendem a cena musical hoje, sabem que no seu país, há quase meio século, jovens da mesma idade ganhavam o mundo fazendo música nesse nível? A maioria hoje ao menos sabe da existência dessa música? Antes de me chamarem de saudosista, pensem que não fomos capazes enquanto produtores, mercado e público, de garantir a simples existência desse patamar de excelência musical com o passar dos anos. Isso não é saudosismo, é fato: nossa indústria e nossa mídia literalmente jogaram fora a preciosidade que esse nível de exigência musical significa. Particularmente para a mídia que nos privou da diversidade, esse grau de excelência já morreu e com ele a continuidade da criatividade na música. E não estou falando de estilo, de MPB ou outras baboseiras: pode-se ser criativo em qualquer estilo. O que quiseram tornar fora de moda não foi um estilo, mas a própria criatividade!! É óbvio que ainda há hoje jovens, teimosos estranhos no ninho, fazendo música nesse nível, e eu fico feliz igual pinto no lixo ao ver que, apesar de tudo, a música de verdade não pára, ela vai sempre seguir em frente, usando agora de novos caminhos. Só que daqui há mais 50 anos, se nos mantivermos nessa incapacidade burra, quem saberá disso? Será que ninguém percebe que a música é uma das formas de identidade de nação, e que a educação musical, muito mais que uns caraminguás nas mãos de alguns, é uma das chaves para a construção de riquezas? Sim, originalidade, criatividade, linguagem própria são geradores de riqueza!!! Matar a galinha dos ovos de ouro, é a imagem que me vem. Mais que com a burrice, a indignação é com o desperdício!" Por Sérgio Santos

10 de maio de 2015

Estatísticas mal interpretadas na mão de falsos polemistas

Comentário sobre a matéria publicada no jornal The Guardian a respeito dos resultados da pesquisa liderada por Matthias Mauch, da Escola de Engenharia eletrônica e Ciência da computação da Queen Mary University de Londres. 

Há várias objeções a fazer, ainda que se trate apenas de uma notícia de jornal. Vou resumir o que penso: estatísticas mal interpretadas na mão de falsos polemistas. De nada adianta levantar, ou minerar, como gostam de dizer, o que não se sabe conceituar ou interpretar. Juntar fragmentos sem saber o sentido que eles tem em constelação. Love em She loves you e Love em The word são duas coisas diferentes. O acorde final em Mi maior de A day in the life não é igual a outro acorde em Mi maior. Trata-se de uma objeção metodológica direta ao modismo conhecido como Big Data, que preconiza alcançar novos resultados a partir da análise massiva de dados. O que vem acontecendo, via de regra, é que a capacidade de reunir "toneladas" de dados não vem necessariamente acompanhada da solidez teórica ou da argúcia interpretativa. Sei lá o que estão afinal medindo, mas certamente lhes falta a dimensão do que deve ser analisado.
Como historiador teria também uma coisa ou duas a dizer sobre o conceito de revolução. Entre outras que a interpretação de um processo revolucionário não acaba quando o próprio se encerra (ou é tido por encerrado). Assim é indissociável de nossa compreensão sobre o quão revolucionária é a música dos Beatles o que extrapola as gravações que estes fizeram no momento em que fizeram. Ou seja, entender uma revolução é entender também como a posteridade a representa, rememora, etc. Há portanto um erro metodológico aí em "mediendo la revolución". Basta ver um documentário como The making of Sgt. Pepper's... para perceber como toda uma geração de músicos reconheceu, referenciou-se, inspirou-se no que identificou como revolucionário nos Beatles. Outra coisa, eu acho tb problemático resumir o processo de criação da música popular ao fonograma oficial, ainda que este seja importantíssimo. No caso específico dos Beatles é possível, através de horas e horas de sobras de estúdio e takes alternativos entender seu processo criativo para além do resultado final em disco. Abordo o caso de Strawberry Fields Forever neste artigo, acompanhando sua construção desde os primeiros esboços em voz e violão de Lennon, o que é possível fazer através de dezenas de bootlegs. Se o que fizeram ali não foi revolucionário na música popular, não sei o que poderia ser.
 

8 de maio de 2015

1a. c/ a 7a. Lista de documentários do blog de Pedro Consorte

Às vezes a gente topa inadvertidamente com essas compilações utilíssimas navegando pela internet. Essa lista, organizada por Pedro Consorte em seu blog, reúne cerca de 70 documentários abordando música popular, inclusive alguns que já compartilhei, citei ou comentei anteriormente aqui no Massa Crítica. Clicando no link cai direto no blog dele. Aliás, aproveito para elogiar o trabalho exaustivo e bem cuidado pela compilação, que segue inclusive um critério de afinidade para organizar os documentários. Curtam lá!



  1. BRASIL BRASIL – BBC4 (capítulo 1)
  2. Documentário Saravah – Pierre Barouh, 1969 (completo)
  3. CARTOLA – MÚSICA PARA OS OLHOS (completo)
  4. Vinícius de Moraes (completo)
  5. João Gilberto & Tom Jobim (João & Antonio Especial) 1992 (completo)
  6. A Música Segundo Tom Jobim (completo)
  7. Paulinho da Viola – Meu tempo é hoje (completo)
  8. Noel, o poeta da vila (completo)
  9. Clara Nunes – Canal Brasil (1º Episódio)
  10. Adoniran Barbosa – Por toda a minha vida (completo)
  11. “Nós somos um poema” – PIXINGUINHA (parte 1)
  12. Pixinguinha Documentário – SESCTV – Chorinhos e Chorões (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. A Historia de Nelson Cavaquinho (completo)
  2. Samba Riachão (completo)
  3.  Verdadeira Historia do Samba (completo)
  4. Velha Guarda da Portela – O Mistério do Samba (completo)
  5. Partido Alto (completo)
  6. Na levada do choro – Minas Gerais (completo)
  7. Um Choro Mineiro – Eterno Retonro (completo)
  8. Bezerra Da Silva – Onde a Coruja Dorme (completo)
  9. Neguinho da Beija-Flor, Quinho e Diogo Nogueira – Samba na Gamboa (completo)
  10. Samba Carioca – Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. João do Vale – Muita gente desconhece (completo)
  2. Palavra (En)cantada – 2008 (completo)
  3. Nelson Freire (completo)
  4. Ernesto Nazareth – canal STV (completo)
  5. Documentário Heitor Villa-Lobos (completo)
  6. Dolores Duran – Por toda a minha vida (parte 1)
  7. Tom Jobim e a Bossa Nova – 1993 (completo)
  8. Elis Regina – Por toda a minha vida (parte 1)
  9. O universo musical de Baden Powell (completo)
  10. A Sede do Peixe  – Milton Nascimento (completo)
  11. Clube da Esquina – Sobre Amigos e Canções (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. Novos Baianos F.C. 1975 (completo)
  2. Uma Noite em 67 – 3º Festival da Música Popular Brasileira (completo)
  3. O Som do Vinil – Tropicália (Parte 1)
  4. Os Doces Bárbaros (completo)
  5. Gal Costa – Da Tropicália Aos Dias de Hoje (parte 01)
  6. Alquimistas do Som – a experimentação na MPB (completo)
  7. Daquele Instante em Diante – Itamar Assumpção (completo)
  8. Fabricando Tom Zé (completo)
  9. Maracatu – Ritmos Sagrados – de Eugênia Maakaroun (parte 1)
  10. Dona Joventina – Maracatu Estrela Brilhante (completo)
  11. Chico Science – Movimento Manguebeat (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. SIMONAL – NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI – (completo)
  2. America Brasil – Seu Jorge (completo)
  3. Cazuza – Sonho de uma noite no Leblon (parte 1)
  4. Raul Seixas – O início, o fim e o meio (parte 1)
  5. Raul Seixas – Por toda a minha vida (completo)
  6. LÓKI – Arnaldo Baptista (parte 1)
  7. Ave Sangria – Sons de gaitas, violões e pés (completo)
  8. BIZZ – Jornalismo, causos e Rock and Roll (completo)
  9. Ruído Das Minas – O Heavy Metal mineiro (Completo)
  10. 20 ANOS NA ESTRADA DO ROCK – Its Only Rolling Stones (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. Titãs – A vida até parece uma festa (completo)
  2. Os Paralamas do Sucesso – Paralamas em Close Up (1998) (completo)
  3. Botinada – A história do Punk no Brasil (completo)
  4. Guidable – A verdadeira História do Ratos de Porão (completo)
  5. Eles Ainda Acreditam – Cena independente em SP (Parte1)
  6. Mulheres no Metal (completo)
  7. Rock Brasilia – Era do ouro (completo)
  8. O Sonho não acabou – O rock paulista da década de 80 (completo)
  9. Renato Russo e Legião Urbana – Por toda a minha vida (completo)
  10. Mamonas Assassinas – Por toda a minha vida (completo)
  11. Documentário Ventura – Los Hermanos (completo)
Clique aqui para assistir.
  1. Tim Maia – Por toda a minha vida (completo)
  2. Leandro – Por toda a minha vida (completo)
  3. Claudinho e Buchecha – Por toda a minha vida (completo)
  4. Vou Rifar Meu Coração – O Brega (completo)
  5. Maestro Invisível – A História do primeiro DJ (completo)
  6. MPB: A história que o Brasil não conhece (completo)
  7. Paulo Vanzolini Um Homem de Moral (completo)
  8. HISTÓRIA DA MÚSICA BRASILEIRA (cap.1)
  9. Reggae na Estrada (ep.1)


Adendo:
Acabei encontrando ainda um artigo muito interessante, entitulado "O filme documentário como discurso de patrimonialização da música popular brasileira", escrito por Evelyn Goyannes Dill Orrico, Amir Geiger e Sabrina Dinola Gama Silva. Um breve resumo:
 Completo, aqui

A constatação de que houve aumento da produção de documentários, em especial sobre música, instiga a pensar que algo significativo ocorreu na relação entre essas duas artes: de modo resumido e provocativo, pode-se afirmar que a música passou da trilha para a tela. Esta passagem provoca pensar na relação que essa mudança na ordem dos discursos e das percepções tem com a própria realidade brasileira e as perspectivas ou desafios de representá-la, apreendê-la e modificá-la – por exemplo, nas práticas patrimonializadoras.
Este capítulo discute, em última instância, a construção da identidade brasileira por intermédio do que se considera uma nova prática de patrimonialização, a partir de Davallon (2006). Questiona, em primeiro lugar, de que modo a relação da música com a identidade brasileira pode ser entendida segundo o que aqui se denomina de patrimonialização. Além disso, essa relação, ao aproximar cinema e música, permite refletir sobre um outro fator importante na contemporaneidade: a mediação cultural. Importa pensar o papel que a mídia exerce nesse processo de patrimonialização. Em terceiro e último lugar, essa aproximação permite refletir sobre o papel de músicas e artistas reconhecidos no que se denomina de música popular brasileira (MPB), compondo algo construído em prol de uma identidade musical brasileira. (...) Os documentários seriam, então, o que Davallon (2007) denomina de operadores de memória social, tendo em vista que resultam de uma produção formal e se destinam à produção de efeito simbólico. Como objeto cultural, os documentários, ao mesmo tempo em que buscam representar a realidade, também permitem, àquele que os observa, uma possibilidade de produzir significação. (...) O capítulo conclui que a mensagem que está nos filmes como gênero é um modo de relação entre os Brasis passados e presentes e que, por isso mesmo, não se encontra em nenhum deles especificamente. Para essa relação, a MPB é interessante, não por ter conseguido encontrar ou produzir a música brasileira autêntica que projetou ou em que se projetou convicta e engajada, mas porque autenticamente, isto é, de um modo radicalmente brasileiro, produziu músicas genial e genuinamente inautênticas, divergentes.