Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

23 de fevereiro de 2014

Subversivo papai noel tropical - Hermeto Pascoal

Empolgante essa entrevista com o genial Hermeto Pascoal, como de costume é o que faz esse músico ímpar, que transborda inspiração e acabou dando vontade de escrever alguma coisa, num estilo um tanto mais aberto, digamos assim.  
Dukaráio Hermeto meta mesmo a mão, dê na cara, tira tudo do lugar, bagunça o coreto e mostra como se faz: "Ganhe dinheiro, mas não seja ganhado. Coma, mas não seja comido. Foda, mas não seja fodido."Hermeto quer alugar um helicóptero: "Quero pegar as mais de 3.000 músicas inéditas que tenho e jogar lá de cima, como se fossem folhas. Não é brincadeira não." Como um papai noel tropical ele se dispõe a distribuir alegria em forma de música e desafiar a lógica reinante do consumismo. Nele eu acredito.


20 de fevereiro de 2014

Pesquisa, patrimônio e música popular

Hoje à tarde participei da banca de defesa de doutorado de Ana Paula Silva, sobre a Discoteca Oneyda Alvarenga, na pós-graduação em Ciência da Informação ECI/UFMG. O tema de pesquisa altamente relevante, deixa a mostra a fragilidade da política brasileira de patrimônio cultural para arquivos de áudio, discotecas e afins. O fato de muitos pesquisadores recorrerem ao material da Missão de Pesquisas Folclóricas concebida por Mário de Andrade quando estava à frente do Departamento de Cultura de São Paulo no final dos anos 1930, e sistematizado por Oneyda, revela o peso do trabalho feito, mas também a falta de alternativas de igual calibre na época e mesmo posteriormente. São poucos os museus de imagem e som, discotecas públicas e instituições afins, o que dificulta a vida dos pesquisadores que muitas vezes tem que recorrer à boa vontade de colecionadores particulares ou constituir eles mesmos uma coleção para subsidiar sua investigação. Falta também política para incorporar essas coleções privadas, por doação ou compra. Por fim, diante do novo cenário posto pela produção independente e formatos digitais, com circulação na internet em vários suportes, é preciso pensar de que maneira se constituirá a memória sobre a música popular brasileira e qual será o papel do estado e das instituições dedicas à política de cultura nesse contexto. Vejo assim com bons olhos que surjam trabalhos sobre o tema e que a sociedade amplie e aprofunde o debate sobre o passado, o presente e o futuro desses espaços.

11 de fevereiro de 2014

Estudando a entrevista

Enquanto relutava em concluir a leitura do já nascido fundamental livro de Chico Amaral, A música de Milton Nascimento [ler resenha aqui], fiz algumas reflexões, entre as muitas instigadas por estas páginas tão bem escritas e alinhavadas com a habilidade e criatividade próprias de seu autor. Como uma suíte, o livro é composto de partes que se encadeiam e se complementam, mas guardam andamento e arranjo diferentes. Destas, um dos destaques é a longa entrevista feita com Milton. Uma coisa que me incomoda nas entrevistas feitas com músicos populares, que li em boa quantidade ao longo dos anos em que pesquiso o assunto, é que as perguntas e respostas tendem a se repetir, seja pela finalidade editorial daquele depoimento, seja porque o entrevistador acomodou-se e confiou nos caminhos já trilhados de quem já registrou a fala de seu entrevistado, ou porque este último já como que automatizou as respostas, tantas foram as vezes em que lhe fizeram as mesmas questões. A do livro tem como mérito maior o tempo e destreza gastos em esmiuçar o que de fato é o objeto da obra, ou seja, a música. Não é comum os músicos tratarem de forma tão detida desse assunto, e aqui isso se dá porque o entrevistador não apenas conhece a teoria, mas igualmente a prática, o que lhe instrumentaliza para conduzir bons papos, eventualmente difíceis para os que não detém um certo conhecimento específico da matéria. Além de deixar espaço para as idas e vindas, sem deixar o entrevistado refém de um roteiro muito estruturado, mas tão pouco lhe abandonando às longas derivas que o rememorar pode produzir, ela é bem pensada na forma de apresentação, trazendo aqui e ali rápidos e certeiros comentários posteriores do autor ou, o que é muito interessante, alguns trechos de outras entrevistas com os demais participantes das aventuras musicais de Milton, chamadas para esclarecer, pontuar, pormenorizar, ou talvez para lembrar ao leitor a natureza lacunar própria do lembrar. 
É uma alternativa ao formato mais clássico de entrevista longa, geralmente organizado em torno da biografia do entrevistado. Uma variação pode ser encontrada nas entrevistas conduzidas por pesquisadores usando metodologia da denominada História Oral, concebida para revelar novos ângulos a respeito do vivido partindo do trabalho de rememoração  pelo sujeito que protagonizou a experiência histórica em questão. Entrevistas assim tem o mérito de poder cobrir uma gama de assuntos de interesse e costumam ser mapeadas de modo a permitir a indexação e acesso a partes delimitadas de seu conteúdo, como nos depoimentos ao Museu Clube da Esquina produzidos pela equipe do Museu da Pessoa.
Há também entrevistas que são realizadas por vários perguntadores, posicionados  em bancadas, como no emblemático programa de tv Roda Viva {Bar Academia; , ou de modo mais informal e próximo ao entrevistado, como era o costume nas realizadas pel' O Pasquim. Outra possibilidade é a de realizar a entrevista com vários músicos, arregimentados por sua afinidade e envolvimento em projetos coletivos, como é o caso de algumas entrevistas com membros do Clube da Esquina. {Histórias da MPB, TVE-RJ; O som do vinil; Espaço aberto} Ou eventualmente os próprios músicos podem ser deixados à vontade para desenvolver uma conversa proveitosa e reveladora. É o que ocorre no documentário A sede do peixe, no cenário propício de uma mesa de bar. Um formato marcante é o do programa Ensaio, em que o músico vai interagindo com o entrevistador mas quem assiste só ouve as respostas, sentido-se instigado a deduzir as perguntas feitas da cabine do programa. Em muitos programas televisivos desse tipo há apresentações musicais intercaladas, e eventualmente os músicos permanecem com seus instrumentos ao longo da entrevista, o que pode ser interessante para que ele ilustre ou traduza sonoramente determinados pontos de sua fala {Toninho Horta violão ibérico}. 



10 de fevereiro de 2014

Stuat Hall - contra as correntes

A definitiva passagem de uma referência intelectual que se admira, se entristece, deve ser ocasião de compromisso com a marca que foi deixada por ela no mundo e em nós, não como reverência vazia, ou como lamento automático, mas como afirmação da força transformadora de seu pensamento e ação, que não irá se dissipar justamente na medida em que ocorra essa determinada opção de manter a voz daquele notável ser humano ecoando em nosso meio. Stuart Hall, certamente um dos intelectuais mais influentes de sua geração, um pensador de esquerda da e na diáspora, de uma ilha até outra, que do coração do velho império contribuiu muito para emancipar o estudo da cultura de diversas "escravidões mentais", em múltiplas frentes. Para mim sua grande contribuição é ter demonstrado que o engajamento intelectual não prescinde da originalidade teórica e da crítica aguda, antes nutre-se delas. Hall deixa a obra de um insurgido que reconfigurou o cenário e ajudou a alterar nossa percepção sobre identidades, migrações, trânsitos culturais, etnicidade, política, cultura popular, meios de comunicação, globalização, e por aí vai.

Transcrevo um trecho de seu texto "Pensando a diáspora" [publicado no livro Da diáspora]:

"A cultura caribenha é essencialmente impelida por uma estética diaspórica. Em termos antropológicos, suas culturas são irremediavelmente "impuras". Essa impureza, tão frequentemente construída como carga e perda, é em si mesma uma condição necessária à sua modernidade (...) Não se quer sugerir aqui que, numa formação sincrética, os elementos diferentes estabelecem uma relação de igualdade uns com os outros. Estes são sempre diferentemente inscritos pelas relações de poder - sobretudo as relações de dependência e subordinação sustentadas pelo próprio colonialismo. Os momentos de independência e pós-colonial, nos quais essas histórias imperiais continuam a ser vivamente retrabalhadas, são necessariamente, portanto, momentos de luta cultural, de revisão e de reapropriação".(HALL, 2006, p.34)

Era também um excelente entrevistado, como é possível perceber nessa que concedeu a Heloísa Buarque de Hollanda e Liv Sovik [aqui] , e desta autora é também um belo texto homenageando Hall publicado 22/02 em O Globo [aqui].
Encontrei também uma lista [aqui] com oito músicas que levaria se naufragasse numa ilha deserta que traz Miles, Marsallis, Marvin Gaye, Billie Holliday, Bach, Puccini e a canção que escolhi para homenageá-lo, de seu conterrâneo Bob Marley. Um trecho da nota de óbito de David Morley e Bill Schwarz, seus amigos e ex-alunos, publicada no site do “The Guardian”, menciona essa mesma lista:
“Quando apareceu no programa de rádio Desert Island Discs, Hall falou de sua paixão duradoura por Miles Davis. Explicou que a música representou para ele o som do que não pode ser, ‘the sound of what cannot be’. O que era sua vida intelectual, senão o esforço, contra todos os obstáculos, para fazer ‘o que não pode ser’, viver na imaginação?”

6 de fevereiro de 2014

John Lennon e o tempo das palavras

Acabei de ler a ótima tradução feita pelo Pablo Castro para a incisiva canção Gimme some truth de John Lennon. Crua e direta, como no original, tanto quanto foi possível. Sim, porque a dificuldade reside no fato das escolhas que se pode fazer para traduzir o vocabulário usado pelo compositor, carregado de expressões populares, da língua das ruas e da rebeldia. Expressões que também refletem um corte social e político muito específico, do início dos anos 1970, da contracultura, visível nas referências às drogas e aos termos psicanalíticos, do protesto contra a Guerra do Vietnã e as desculpas esfarrapadas do governo. Fiquei, por isso mesmo, instigado pelo intraduzível Tricky Dicky (algo como ardiloso ricardinho), provavelmente endereçado a Richard Nixon e possivelmente sacado da canção de título homônimo de Leiber e Stoller (dupla pioneira do rock and roll que era apreciada por Lennon e pelos demais Beatles) gravada por Richie Barrett em 1962 e The Searchers em 1963. Lennon coloca Nixon como uma espécie de papa da retórica ensaboada que a letra joga ao chão com o soco no estômago que vocaliza o clamor dos protestos: me dê um pouco de verdade. Não sou um profundo entendedor das sutilezas do trabalho de tradução mas acho que era preferível mesmo ficar sem traduzir. Se não por outros motivos, ao menos por motivar esse pequeno exercício de pesquisa que foi bastante instrutivo.



Me Dê Um Pouco da Verdade. Gimme Some Truth ( Lennon) <original, com cifra>

Estou cansado de ouvir coisas
Vindas de arrumadinhos, míopes, hipócritas de mente estreita
Tudo que quero é a verdade.
Me dê só um pouco da verdade.
Estou farto de ler coisas vindas
De neuróticos, psicóticos, políticos de cabeça-de-porco,
Tudo que quero é a verdade.
Me dê só um pouco da verdade.

Nenhum careta,covarde, filho de Tricky Dicky
Vai me "agradar" me "ensaboando" suavemente
Com um simples maço de esperança
Dinheiro pra droga
Dinheiro pra corda

Nenhum careta,covarde, filho de Tricky Dicky
Vai me "agradar" me "ensaboando" suavemente
Com um simples maço de esperança
Dinheiro pra droga
Dinheiro pra corda

Estou doente de ver as coisas
De chauvinistazinhos da mamãe, condescentes e secretistas.
Tudo que quero é a verdade.
Me dê só um pouco da verdade, agora.

Eu estou farto de ver cenas
De prima-donnas esquizofrênicas, egocêntricas e paranoicas.
Tudo que quero é a verdade,agora
Me dê só um pouco da verdade.

Nenhum careta,covarde, filho de Tricky Dicky
Vai me "agradar" me "ensaboando" suavemente
Com um simples maço de esperança
Dinheiro pra droga
Dinheiro pra corda

Ah,Eu estou doente e cansado de ouvir coisas
De arrumadinhos, míopes, hipócritas de mente estreita
Tudo que quero é a verdade, agora.
Me dê só um pouco da verdade, agora.

Estou farto de ler coisas vindas
De neuróticos, psicóticos, políticos de cabeça-de-porco,
Tudo que quero é a verdade, agora.
Me dê só um pouco da verdade, agora.

Tudo que quero é a verdade, agora.
Me dê só um pouco da verdade, agora.
Tudo que quero é a verdade.
Me dê só um pouco da verdade.
Tudo que quero é a verdade.
Me dê só um pouco da verdade.


As gravações citadas na postagem:





P.S. 2017
Aproveitando o embalo da celebração da data de aniversário de Lennon, acabei encontrando essa significativa gravação pirata em que ele troca ideias com o parceiro McCartney enquanto tocam a canção. Felizmente, quando se trata dos Beatles há muito material assim, sobras de gravação em estúdio que geralmente são descartadas, mas no caso deles foram preservadas e permitem uma verdadeira arqueologia da composição de várias de suas canções, e sobretudo um entendimento de seu método de trabalho em estúdio.


4 de fevereiro de 2014

Recomendação de blog - Melt

As navegações errantes podem nos transportar a sítios literalmente fantásticos, como é o caso desse MELT, basicamente orientado pelas artes visuais e com grande atenção para sua interface com a música, especialmente a seção album of the week que apresenta uma seleção de discos de diferentes épocas, todos com capas que prendem o olhar. Alguns também são acompanhados de resenhas e material fotográfico. A música, pelo jeito, é escolhida ao gosto dos editores, sem maiores detalhes. Ainda pretendo abordar a arte de capas com maior cuidado quem sabe escrever um artigo a respeito, mas por enquanto já vale esse exercício exploratório. Selecionei dois tópicos particularmente atraentes visual e musicalmente dentro do site, o primeiro mostra alguns dos trabalhos de Roger Dean, artista particularmente conhecido por ilustrar os discos do Yes com paisagens fantásticas e geografias interplanetárias, e o segundo é sobre Marijke Koger, uma das criadoras do coletivo de arte The Fool, que entre outras peripécias pintou a fachada da butique da Apple dos Beatles. Aproveitem o visual...

 

3 de fevereiro de 2014

A Música que vem de Minas: Tavito – Mineiro (2014)

A Música que vem de Minas: Tavito – Mineiro (2014): O novo CD de Tavito, o “Mineiro” é o segundo do artista após seu retorno aos palcos, em 2008. (clique no link para continuar lendo)

Vai valer uma audição atenta, em breve.

1 de fevereiro de 2014

O outro lado do Grammy

Assisti, erraticamente, à cerimônia do Grammy 2014, basicamente pela presença de Paul McCartney e Ringo Starr. Pois depois de ver o Ringo e os veteranos da All Starr Band tocarem Photograph, fazendo seu som de forma digna e apresentando-se de modo a colocar a música em primeiro plano, assistir a pirotecnia e encenação de "artistas" quem não tocam e não cantam nada foi um verdadeiro castigo, do qual tentei me poupar o melhor que pude. Tanto que perdi os dois juntos no palco tocando Queenie eye rsrsrs e celebrar os 50 anos do início da invasão britânica. Depois vi pelo You Tube, antes que os donos dos direitos do evento saíssem bloqueando. Enfim, é um negócio da indústria cultural com N, nem compensa render muito em cima disso não.  Acontece que o Trio Corrente, um dos mais prestigiados da música instrumental  brasileira atualmente, levou junto com Paquito D'Rivera o troféu de melhor álbum de jazz latino pelo CD “Song For Maura”. O que não foi devidamente noticiado, inclusive porque ocorreu naquele limbo das premiações paralelas. Acabei lendo a matéria escrita por Kiko Nogueira [completa, aqui], que chamou-me a atenção por conter o relato do pianista Fabio Torres, que "contou o que é ganhar um Grammy sem que ninguém note muito". Um relato vivo e sincero que transcrevo porque é um jeito de ver o outro lado da coisa:

Eu, o baterista Edu Ribeiro e o baixista Paulo Paulelli fazemos música instrumental brasileira, tocando basicamente os grandes autores do choro, do samba e da bossa, como Jobim, Pixinguinha e Baden, e também nossas próprias composições. Escrevo sob o impacto do prêmio por nós recebido no dia 26 de janeiro, o Grammy de melhor álbum de jazz latino, pelo CD “Song for Maura”. Esse trabalho foi fruto de uma parceria entre o Trio Corrente e o saxofonista cubano radicado nos EUA, Paquito D’Rivera. Muita gente me disse: “Eu assisti a cerimônia do Grammy na TV e não vi vocês lá”. É bom esclarecer que além dessa premiação televisionada que reúne as grandes estrelas do Pop, num teatro menor ao lado do imenso Staples Center é realizada uma outra cerimônia que entrega 72 Grammys para as mais diversas categorias como jazz, gospel, música clássica e outras.
Pois bem, é aí que estão incríveis grupos de música de câmara, compositores e intérpretes de música erudita, bem como alguns dos jazzistas mais conceituados dos EUA e do mundo.  Vimos alguns de nossos ídolos ganhando ou perdendo seus prêmios na nossa frente. E, esperamos 40 categorias – mais ou menos 2 horas – até chegar nossa vez. Apenas um brasileiro havia faturado essa categoria até hoje, nosso maestro Tom Jobim em 1996.
Eu fiz de tudo pra fugir do espírito de competição, exorcizar o terrível “winners and losers” dos americanos. Mas o fato é que foram duas horas da mais terrível angústia. E o instante em que anunciaram nosso nome foi algo indescritível. Sim, é um pouco piegas, mas foi exatamente isso. Uma mistura de alívio com extrema felicidade. Pensei também na enorme e artificial distância que nos separava dos outros indicados preteridos. Após nos tornarmos “Grammy Winners” nos tiraram da platéia e nos levaram pra sessões de fotos e entrevistas enquanto os outros eram como que abandonados à própria sorte.
Logo depois fomos ao Staples Center assistir a premiação das estrelas do pop, rock, country, rap etc. Eu estava acompanhado de minha filha e entramos pelo tapete vermelho junto com dois caras com roupas de robô. Também havia muitas luzes e burburinho mas sou completamente ignorante em matérias de ícones pop. Minha filha acha que no centro de uma rodinha muito agitada pela qual passamos estava a Madonna…mas podia ser a…Taylor Swift??
Vimos de pertinho o Paul e o Ringo, o Stevie Wonder e uma negra muito, muito linda que, há pouco descobri, se chama Beyoncé. Claro que, para ouvidos de músico experiente, foi fácil identificar muitos artistas sem nenhuma substância musical, alguns inclusive sendo consagrados e que serão vítimas da efemeridade inclemente. Assim como foi fácil perceber o porquê de alguns veteranos fazerem sucesso durante tanto tempo, tal a verdade de sua arte.
Toda essa experiência inusual me fez pensar muito sobre a música, o sucesso. Pensei na distância que separava a nossa música da música daquelas estrelas. Pensei na estrutura imensa, paquidérmica, que move essa fábrica de celebridades e no quanto, cada vez mais, essa estrutura será ameaçada pela multiplicidade de vozes que a internet traz. 
Muitas pessoas se queixaram da ausência do Trio Corrente na televisão brasileira, na noite da premiação. Achavam que deveria ser destacado o fato de artistas brasileiros serem premiados. Estarei sendo sincero em confessar que isso não diminui nem sequer uma ínfima fração de meu contentamento. Não tenho televisão em casa e tive a sorte de conhecer uma moça que também não tinha e me casar com ela.

Trio Corrente & Paquito D' Rivera
Festival Internacional de Jazz de Punta del Este - Uruguay
Janeiro de 2011

Paquito D'Rivera -clarinete
Fabio Torres - piano
Paulo Paulelli - contrabaixo
Edu Ribeiro - bateria