Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

29 de outubro de 2013

Sob o céu de Tóquio

Os muitos trânsitos culturais acionados pela música popular são capazes, às vezes na mesma frase, de promover a redução das distâncias sem contudo obliterar as diferenças. A entrevista concedida por Herbie Hancock e Wayne Shorter, antes de se apresentarem junto a Stanley Clarke e Robertinho Silva como banda acompanhante de Milton Nascimento (que também concedeu entrevista à tv japonesa) em um show em Tóquio evidencia na questão da língua esse jogo de aproximações e distanciamentos. Hancock manifesta o desejo de saber português, causado pela tradução de algumas canções de Milton. Shorter por sua vez, apesar de ser casado com uma portuguesa (Ana Maria), diz que só fala português "subconscientemente".  Musicalmente todos se entendem muito bem.




25 de outubro de 2013

Aperfeiçoando o perfeito


Enquanto se acerca o aniversário de um certo Notlim Otnemicsan encontrei nesses translados ciberespaciais, através da postagem do Francisco de Paula na página de facebook do Blog Clube da Esquina, a uma versão primorosa de Ao que vai nascer, canção onírica que revolve a dimensão do tempo e brande, em meio à paisagem maculada da pátria de baionetas, uma ode à força do encontro e da criação. Nada poderia ser mais apropriado para lembrar o Nascimento de um Milton, e ouvi-lo na condição da criação que atravessa as eras.




Compartilhei-a, o que imediatamente motivou os comentários certeiros que seguem, do meu parceiro Pablo Castro:

A faixa derradeira e seminal do disco Clube da Esquina, a lunar "Ao que Vai Nascer" , de Milton e Fernando Brant, é absolutamente arrebatadora.

Meu parceiro Luiz Henrique Assis Garcia [autor/editor deste blog] achou esse versão , também com Milton, num disco [A Brazilian Love Affair, clique no link para ouvir todo] de George Duke, tecladista e vocalista sensacional que, entre incursões jazzísticas, integrou a banda de Frank Zappa.

[nota 1 do editor: e colaborou em diversas ocasiões com a grande cantora brasileira Flora Purim, radicada nos EUA e intérprete valorosa de pérolas do repertório miltonascimentiano;
nota 2 do editor: acabei de ver que o George Duke deixou o plano terrestre justamente esse ano. Segundo o bom texto do Mário Lopes (completo, aqui):
 
George Duke, músico de jazz, estrela pop, criador de funk devidamente pecaminoso, só era coerente na sua aparente incoerência. Aparente porque não havia nada de incoerente no seu percurso, antes uma imensa curiosidade (a que o levou, por exemplo, ao Brasil, no final dos anos 1970, para gravar com Milton Nascimento ou Flora Purim o jazz tropicalista de A Brazilian Love Affair). Curiosidade e a noção muito moderna, sabemo-lo agora, da inexistência real de uma hierarquia separadora da alta e baixa cultura. Nesse sentido, o músico que se iniciou nas lições de piano depois de ver Duke Ellington foi fiel à sua inspiração primeira, ao homem que afirmou um dia “só existem dois tipos de música, a boa e a má”]. Segue uma apresentação mais recente, em que ele executa sua versão de Cravo e canela:

 
Mas é Bituca do começo ao fim, numa das mais épicas páginas da música popular mundial no século XX. Uma das letras mais inspiradas de Brant, Ao que Vai Nascer conjuga um despertar assombroso lírico contra as cores pesadas do momento histórico de chumbo.

Memória de tanta espera
Teu corpo crescendo, salta do chão
E eu já vejo meu corpo descer
Um dia te encontro no meio
Da sala ou da rua
Não sei o que vou contar
Respostas virão do tempo
Um rosto claro e sereno me diz
E eu caminho com pedras na mão
Na franja dos dias esqueço o que é velho
O que é manco
E é como te encontrar
Corro a te encontrar
Um espelho feria meu olho e na beira da tarde
Uma moça me vê
Queria falar de uma terra com praias no norte
E vinhos no sul
A praia era suja e o vinho vermelho
Vermelho, secou
Acabo a festa, guardo a voz e o violão
Ou saio por aí
Raspando as cores para o mofo aparecer
Responde por mim o corpo
De rugas que um dia a dor indicou
E eu caminho com pedras na mão
Na franja dos dias esqueço o que é velho
O que é manco
E é como te encontrar
Corro a te encontrar



[Nota 3 do editor : um detalhe sobre essa canção foi o fato de sua letra original ter sido censurada, no trecho ‘Brasil é o país do futuro, meus filhos, meus netos/ o futuro está aqui/ pintaram os fatos de todas as cores/ nesta eu não .../ acaba a festa, guardo a voz e o violão/ e saio por aí/ encerro o canto só se o corpo adormecer’ que virou o trecho "Queria falar de uma terra..." e acabou ficando bem mais pesada, na interpretação do próprio autor. De fato uma grande sacada do Brant, jogar com as cores, elemento simbólico rotineiramente acionado pelo Regime Militar em seu propagandismo ufanista, aqui devidamente descascadas.]

19 de outubro de 2013

Cheire Vinícius


Tá difícil de sair o texto. Também tá difícil deixar passar a necessária homenagem ao centenário de nascimento do grande poetinha Vinícius de Moraes. Não pode... Como compositor bissexto e amador que sou, aprendiz, diria que Vinícius, se fosse santo, seria o santo padroeiro dos letristas. Se toda uma linhagem de músicos populares brasileiros aprendeu com João a ser desafinado, aprendeu com Vinícius a escrever beijinhos. Mas ele não tinha nada de santo, felizmente. Talvez esteja mais para um buda etílico*, uma contradição em termos, já sei, mas não resisti à imagem que cai como uma luva para o sujeito que disse que o uísque era o cachorro engarrafado. Vinícius irradiava inspiração de uma forma generosa, na sua obra e na sua vida. Aliás é isso, o que ele sorveu e transpirou em seus versos, em seus escritos, canções, frases, foi a vida de forma plena, nos seus gozos, angústias, doçuras, amargores, sutilezas, asperezas, no vinho, na água, no sangue, na tristeza, na felicidade. O verso do Chico é preciso: "cheire Vinícius". É pelo olfato, na sua visceralidade, que sentimos a onda que é Vinícius. Não precisam se preocupar, não é pra deixar de lado os outros sentidos. Por todos o poetinha se faz presente. 

***


Em 2010, quando residi em Governador Valadares para lecionar na Univale, passamos as primeiras semanas respirando Vinícius de Moraes em casa, pois sem antena e sem cabo, o dvd player ficava ligado e meus filhos ficaram absolutamente fascinados pelo disco (presente que ganhei do caríssimo amigo Guilherme Lentz) que registra um show de Tom e Vinícius para uma tv suiça, acompanhados por Toquinho e Miúcha. Ouviram tanto que sabiam cantar todas as músicas, iam comentando, se encantando, e também a mim. Me senti inclusive instigado a ler uma biografia - gênero absolutamente necessário, entre outros motivos, para conhecer a história da música popular e seus artífices - que encontrei numa visita entre tantas à biblioteca do Campus II. Estava lá - e recomendo - "VINICIUS DE MORAES - O POETA DA PAIXÃO" de José Castello [confira aqui a resenha no site da editora Cia das Letras]. 

***
Por fim, deixo os links do novo sítio oficial e também da muito bem cuidada iniciativa do "Memória Viva", ótimos pontos de partida para conhecer melhor a vida e a obra de Vinícius de Moraes. Destaco essa seção em que é possível ouvir o poeta declamando alguns de seus poemas.

_______________________
* inspiro-me na imagem do buda lácteo criada por meu parceiro Pablo Castro

15 de outubro de 2013

McCartney ressurge (?!) or, the first septuagenary on the disco

Tinha começado a escrever essa postagem antecipando o lançamento de "New", novo álbum de Paul McCartney, a partir de algo que li em O Globo. O tempo passou, o disco saiu, já ouvi e acabei decidindo fazer a postagem tendo a versão anterior como preâmbulo.
É uma matéria que dá até pano pra manga, mas por enquanto vou reter esse trecho que me divertiu:

"McCartney bem diferente do que lançou “Kisses on the bottom” — uma coleção de clássicos americanos, em 2012. No novo trabalho, Macca está muito mais “moderno”, embora tenha preferido usar apenas instrumentos vintage na gravação das canções, num clima que lembra bastante o seu projeto “The fireman”, que rendeu o ótimo “Electric arguments” (2008)." (Fernando de Oliveira/O Globo). 

Um paragrafo bem pós-moderno e bem ruim, diga-se de passagem. Se "Kisses" tem uma qualidade marcante, é ser moderno, sem aspas. "New" por sua vez pode ser justamente esse retrato musical do "retrô" pós-modernista sob a ótica de Paul McCartney, ao qual o emprego da expressão "vintage" remete, sem que o jornalista tenha percebido.O próprio título da reportagem é muito mal escolhido, ressurgir é um termo estranho de usar para tratar de um músico com a carreira e a presença que tem Paul no universo da música popular. Isso só mostra o estado atual de calamidade da escrita sobre música na grande imprensa.

A partir daqui insiro o que escrevi no facebook, onde rolou um bom debate com a participação de companhias internáuticas de alto gabarito de Rafael Senra, Guilherme Lentz, Thiakov, Alô Prado e Pablo Castro. Tentei agrupar o melhor possível algumas falas, mesmo tirando da ordem em que estavam, na tentativa de criar uma visão um pouco mais sintética da argumentação. Nada impede a conversa de continuar por aqui
...

Para ouvir o disco completo


L.Garcia sem muita aflição: Mais um disco do Paul McCartney. Nem pensei que ia ouvir hoje, mas viva a generosidade incomensurável da Liga dos Internautas Unidos. Alô Prado também sem ansiedade: Na verdade nem ouvi o New, não fiquei nada curioso. Já perdi o lançamento de todos os discos dele até o Press To Play... 

L. Garcia faz uma 1a. apreciação:
A percepção de Paul McCartney que gosto de reter é a de um músico capaz de fazer descobertas, abrir trilhas e ser alvo das tentativas de cópia. Porém ele, em momentos de sua carreira solo, escorrega rumo à banalidade pop e o desejo legitimo de conquistar novos públicos por vezes se confunde com a adesão a clichês de produção, como foi em álbuns como Press to play. Assim, o "novo" pode soar paradoxalmente velho, ainda mais em se tratando de um compositor com uma obra tão vasta. Em casos crônicos ele chega a soar como pastiche de si mesmo - o refrão de "I can bet" diz tudo, é literalmente um "Get back" reciclado. Mas claro que se trata de um grande músico que mesmo nessas circunstâncias consegue acrescentar algo. Quem sabe não será através desse álbum que outras gerações irão ser introduzidas às obras máximas do genial Paul McCartney

G. Lentz comenta faixas: 
Gostei muito de "Early days". Lindo uso da voz envelhecida. Acho que é um disco de muitas texturas novas. "Road", "Appreciate", "Hosanna", "Aliggator" e "Looking at her" estão bem longe da linha usual do Paul. Acho que serão louvadas e criticadas por isso. Gostei muito dos rocks e da balada "Scared". "I can bet" tem uma levada mais dançante muito legal - a propósito, bem lembrada a semelhança com "Get back", Balu! Mas agora é deixar a audição pousar e ver que raízes o disco vai criar.

R. Senra analisa e compara discos: 
A cada audição, gosto mais... creio que, até agora, o classificaria como melhor que os anteriores de inéditas (Chaos and Creation... e Memory Almost Full), mas é cedo pra dizer. 
L. Garcia: Memory Almost Full é um disco que nem lembro direito, mas o Chaos and Creation reputo entre os melhores solo do McCartney. Nesse New não tem nenhuma letra do nível das quem tem nele, por exemplo. Fico com a sensação - ainda que carente de verificação - que o New as canções estão mais a serviço da produção que o contrário. Isso até pode ser interessante mas aqui vejo resultados irregulares. Acabei gostando um pouco mais dessa - "Scared", que dá a sensação de ser uma canção da época do Chaos and Creation que ficou de fora.



R. Senra: 
sobre o Chaos and Creation, acho ele muito bem produzido, mas eu particularmente senti falta de um "algo mais" no disco. Deixo claro que é gosto pessoal mesmo. Nunca prestei atenção nas letras dele, exceto as faixas que Paul tocou naquele video "Chaos and Creation at Abbey Road", como English Tea, e outras que lembro ter gostado. Concordo com o que vc diz sobre Paul, e, no mais, achei que o New herda um pouco da produção modernizada do Electronic Arguments (que diziam ser um projeto eletrônico, mas q achei bem orgânico), com a diferença de que Paul parece retomar um suposto formato tradicional da canção popular em diversas faixas. O saldo pra mim (sempre lembrando que, no calor do momento, as opiniões saem meio enviesadas) é um disco uniforme na qualidade, ainda que sem pontos consideravelmente altos.

L. Garcia:
Acho que o "New" mostra sem dúvida um McCartney que jamais se acomoda, mas que por outro lado às vezes se ressente da falta de uma voz dissonante e discordante na composição. Acho sintomático que o disco proponha algum diálogo na figura específica dos produtores, e não de outros músicos. Assim a aventura da coisa parece estar mais nas timbragens e em alguma medida nos arranjos de modo geral, mas aí, posso até estar enganado, mas não escuto novidade no plano geral, ainda que seja interessante a ideia de um cara na faixa dos 70 procurar uma expressão com um vocabulário sonoro da geração que tem 20,30. E enfim, como letrista, nada me chamou muito a atenção, tirando um ou outro achado aqui e ali. Mas tem mesmo que esperar o "pouso" da audição, como o Lentz disse. 

P. Castro, entrando com a costumeira contundência:
Achei fraco. Ouvi até a metade. Claro que Paul continua com seu profissionalismo composicional, mas muito em círculos. Não é na produção fonográfica que se renova a composição de canções. O som pode até ser contemporâneo, mas as idéias musicais continuam muito antigas. Thiakov provoca: Reclama não Pablo Castro! Presentaço do vovô Macca. P. Castro, na sequência: Mas pra que essa condescendência toda ? Ele não é meu avô, mas parece ter problemas em envelhecer, como, aliás, seu contemporâneo caetano, igualmente incapaz de atingir o nível de seu auge, igualmente tentando oxigenar suas composições com tendências da moda. Pelo menos Caetano ousa mais, ainda que a custo de seu antigo apuro melódico e formal. Paul, aqui, realmente parece , mais do que velho, cansado, recorrendo às velhas formas. Do ponto de vista da composição, esse disco poderia muito bem ser da década de 80, há 30 anos. Claro que há momentos interessantes, mas os automatismos de melodia e harmonia perduram sem tocar no sublime que lhe era tão frequente nas décadas de 60 e mesmo 70. Do ponto de vista das letras, parece ter alguns achados, mas nada realmente muito surpreendente. A grande pergunta é: por que continuar gravando um disco por ano, se ele não acrescenta realmente nada à sua obra. Achei bem mais interessante a ideia do disco de standards do ano passado. Acho que ele poderia redescobrir algumas pérolas dele, que ficaram escondidas em tão extenso cancioneiro. Seria bem mais consequente do que se obrigar a fazer 13 músicas por ano aos setenta, além de turnê mundial , etc. (...) Falo assim , de ele ter respeito com a própria obra. É importante uma certa autocrítica, sei lá. L. Garcia: Concordo em relação à autocrítica. Paul é muito prolixo como compositor e simplesmente não se preocupa com essa de obra, até por já ter feito o que já fez, provavelmente. Claro que poderia usar essa ideia das releituras.

R. Senra: Isso que o Pablo disse é algo que sempre me inquietou. Tudo bem que o Paul exiba uma excelente forma, e faça shows antológicos de 3h de duração até hoje, mas ele passou as ultimas décadas repetindo um setlist composto pelos clássicos dos Beatles (eventualmente até resgatando algumas pérolas da banda, como Benefit of Mr.Kite), e alguns dos seus hits solo. Mas ele tem MUITA coisa boa talvez nunca tocada ao vivo. O próprio Paul disse numa entrevista recente que a ideia de fazer shows na linha "classic albuns" não o agradava muito (o repórter sugeriu que ele tocasse o Band on the Run ou o Ram inteiro ao vivo). Seria realmente revigorante vê-lo sair desse repertório que, ainda que impecável, tornou-se meio que lugar comum (ainda que, convenhamos, é um lugar comum fantástico, rs). L.Garcia: acho que por mais maluco que pareça, o Paul se comporta muito como se ainda fosse preciso dar o show, agradar as grandes audiências, ele respira através disso e provavelmente não sabe viver sem isso.

Encerro com o segundo título, pretensa síntese em uma frase do que seria uma apreciação bem rigorosa do álbum, inspirada pela audição da faixa bônus "Struggle": 
McCartney, the first septuagenary on the disco  

 

13 de outubro de 2013

Os delírios não envelhecem

Acabei de voltar do show dos Mutantes tocando por completo o disco Tudo foi feito pelo sol (1974), contando com toda a formação que o gravou (Sérgio Dias, Túlio Mourão, Antônio Pedro de Medeiros e Rui Motta). Sob diversos ângulos, posso afirmar que foi um grande show, com execução primorosa e sanguínea, com direito a solos memoráveis - os "duelos" entre Sérgio Dias e Túlio Mourão foram de arrepiar - e uma usina poderosa de ritmo na chamada "cozinha", uma sincronia e entrosamento que impressionam. No rosto dos músicos estava estampado o prazer de tocar, correspondido pelo envolvimento do público. Já na terceira música todo mundo de pé, posição em que seria assistido todo o restante do show, aliás não muito longo uma vez que a proposta era executar todo o disco. Inevitável sentir ao final que seria muito bom se aquele estado de êxtase durasse mais temp(l)o. Não exagero, especialmente se for pra descrever o comportamento de uma moçada que sequer havia nascido quando o LP foi gravado, e que representava boa parte da audiência. Aliás, nessa me incluo, diria que boa parte do público deveria ter no máximo uns 25 anos... Aí entra meu filho João Paulo, ainda "di menor", que mais uma vez me deu o prazer de sua companhia num espetáculo que de alguma forma tem conotação histórica acentuada. Confesso que jamais poderia imaginar um dia ver um show dos Mutantes, fosse qual fosse a formação. Mas, falando em História, não tenho como evitar o dever de ofício. Esses dias mesmo estava a refletir sobre a forma como a recepção e a posição simbólica do rock 'n' roll mudaram ao longo das décadas. Ver os Mutantes ali, executando ao vivo um disco gravado há praticamente 40 anos, me fez retomar esses pensamentos. De cria rebelde do caldeirão afro-americano, remexido e expandido após cruzar o Atlântico e cair no gosto dos jovens cabeludos da terra da rainha, de celebração catártica do novo capaz de abalar estruturas de uma sociedade conservadora, acabou sendo convertido em clássico, em digno de tributo, em peça de museu e relançamento de catálogo. Sua trajetória é um bom exemplo de como a modernidade traga, mas não dissolve por completo em seus pulmões, as fumaças mais alucinantes que a imaginação humana possa conceber nos mais recônditos cantos da mente e do corpo. Um trecho da matéria do Estado de Minas [completa, aqui] dá uma boa pista para entender um pouco melhor o que ocorre:

“Criou-se uma mítica em torno desse disco”, resume Túlio. O frisson vem, principalmente, da parte técnica. Fãs ouvem as faixas fazendo air guitar involuntário nos solos de Sérgio Dias ou dão dedadas no moog imaginário para acompanhar Túlio Mourão. “A garotada de hoje tem acesso instantâneo e abrangente a tudo. Essa turma compara, conhece muito e encontra conteúdo, sinceridade e alta performance instrumental naquele disco”, avalia Túlio.

Atualmente o passado penetra o presente de forma intensa, e não apenas sob o signo da nostalgia propriamente dita, mas como fetiche, mercantilizado numa fórmula essencialista em que pode ser consumido como se assim fosse possível transcender a diferença do tempo e sentir-se como "se estivesse lá". Entretanto, eventualmente resta a possibilidade concomitante de ser apropriado de forma crítica, num procedimento em que conferimos aos vestígios que dele nos chegam outros sentidos na atualidade. Assim, num tempo de Pro-Tools e parafernálias digitais as mais diversas, retomar a excelência técnica e a musicalidade aguda como parâmetros de gosto pode de alguma forma ter um sentido crítico em relação ao que disponibiliza a indústria fonográfica e a produção cultural movida a leis de incentivo hodiernos. Desse modo, felizmente, os delírios não envelhecem.

8 de outubro de 2013

Uma certa loja de discos e a vontade de compor

Faz tempo que não adoto um tom mais intimista e autobiográfico aqui no blog. Resolvi agora, de um relance, fazê-lo, mesmo que sem muito tempo para produzir o texto que gostaria. É que a memória às vezes pode ser provocada de uma forma tão súbita, tão intensa, acesa por uma fagulha feita de um som, de uma imagem entrevista, e deixar pra depois pode causar prejuízo à capacidade de retomar as lembranças que nesse instante dão a sensação de serem mais nítidas e inteiras do que de fato poderiam ser. Fica também como registro pelo Dia do Compositor.
                                                          Curiosidade: edição em Fita K7 de "Meu Filme", 1996
                                                             
Foi assistindo o vídeo do show Meu filme (que ainda não tinha visto) que me lembrei imediatamente de ter comprado o CD homônimo numa certa loja de discos - não por acaso chamada Liverpool - que ficava no shopping 5a. Avenida, na Savassi (BH). Uma loja que pra mim representava muitas vezes o depósito de tesouros mais ou menos inalcançáveis, que às vezes ficava "estudando" mas poucas vezes tive a possibilidade de adquirir. Só pra dar uma ideia, vinha aquele papelzinho que era pra ser ajuntado, e quando se completava 10 trocava-se por um CD. Nunca completei. Normalmente comprava discos no sebo, fosse vinis ou cds, mas aí fica difícil quando se tratava de lançamento. Deve ter sido algum dinheiro ganho de presente, algo assim. Enfim, se não me falha a memória foi o primeiro CD que comprei no momento em que foi lançado, em 1996. Gosto muito do disco (ainda que dispense a "conexão" Skank em Te ver, compensada com sobra pela preciosa parceria com Caetano, Sem não) e qualquer hora escrevo uma boa resenha dele. Adoro a capa, com elementos inusitados e a presença do caça Tornado, que eu conhecia porque colecionava um periódico sobre aviação militar. Enfim, lembro de comprar e chegar em casa com aquela ansiedade boa, vontade de ouvir logo que assalta quem acabou de adquirir um disco novo. Dentro das minhas limitadas capacidades como violonista, ficava ouvindo e tentando tirar, sem muito sucesso, uma ou outra canção do disco. E queria muito, ser capaz de entender como elas eram feitas, não de um ponto de vista analítico, mas prático mesmo. Dava mesmo uma vontade de compor. Àquela altura já começara minha parceria com o Pablo Castro, e enquanto cursava História na Fafich minhas letras iam aparecendo nas canções dele, além de nas minhas próprias, bem mais amadoras, por assim dizer. Mesmo hoje preferindo outros trabalhos na discografia do Lô, sei que esse tem um lugar reservado, por ser parte do meu filme.

4 de outubro de 2013

Grandes encontros da música popular - Joyce e Vinícius de Moraes


Há muito venho querendo escrever sobre a cantautora Joyce (atualmente assinando o nome completo, Joyce Moreno) que considero uma figura muito importante para entender a conformação da MPB. Testemunha e protagonista, com muita história pra contar (basta ler seu saboroso Fotografei você na minha rolleyflex), acabei de ler esse texto dela achei que valeria publicar alguns trechos com rápidos comentários, guardando outros materiais que já reuni para uma postagem vindoura.

Ciência sem receita - Joyce Moreno


"(...) Mais ou menos um ano depois, quando pela primeira vez classifiquei uma música no Festival Internacional da Canção, comecei a conhecer outros artistas e gente do ramo. Wanda Sá, a grande cantora bossa-novista, me procurou quando eu fazia uma pequena participação num show de Maria Bethânia: "Ouvi suas músicas, Vinicius precisa te conhecer. Vamos lá na casa dele, agora mesmo!" (...) Vinicius morava numa cobertura na rua Diamantina, no Jardim Botânico, com Nelita, então sua mulher. Parecia uma festa, mas depois me dei conta de que aquilo acontecia quase todas as noites: pessoas cantando, bebendo, conversando, rindo até o sol raiar. "Que vida!", pensei cá comigo. "Vida de poeta, também quero." Mostrei algumas das minhas primeiras composições, que ele adorou. "Você é uma feminista", ele disse, pelo fato de as canções serem sempre no feminino singular -definindo uma característica da qual até então não tinha consciência. Eram coisas intuitivas, feitas por uma iniciante de 19 anos. E que ele ouviu com respeito e sincero interesse. Lição número um. A lição numero dois, definitiva, se deu quando chegou um de seus jovens parceiros, Francis Hime, e os dois começaram a trabalhar numa nova canção. Ali, diante de todos, sem esconder o ouro. Dois profissionais, experts na grande arte da canção popular, descortinando uma obra em progresso. A festa virou então uma grande oficina, e eu me vi assistindo a uma "master class" inesperada.

Maravilhada, fui descobrindo como aquilo era suor, era trabalho, ainda que prazeroso, e exigia um conhecimento profundo do encaixe das sílabas certas na melodia, rimas internas, uso esperto da palavra, musicalidade do letrista e sofisticação, apesar da aparente simplicidade. Eu estava tendo uma aula de composição ali, ao vivo e em cores. Parecia fácil, mas havia naquilo uma ciência da qual eu jamais havia suspeitado.

Quando os trâmites foram dados por findos, voltou o clima de festa, com todos os presentes cantando juntos a canção recém-parida. A nova composição foi exaustivamente testada e aprovada, aparadas as possíveis arestas, até à perfeição. Lá pelas oito da manhã, quando nos retiramos da casa dele, cansados e felizes, a aura mágica do poeta nos envolvia a todos. (...)" o texto completo publicado pela Folha de S. Paulo [aqui]

Um relato pra lá de interessante que revela muito sobre como se teceu a complexa trama de sociabilidade e interação que faria surgir no cenário musical brasileiro toda uma geração de cantautores responsáveis pela invenção da MPB. Vinícius (e também, vale lembrar, Tom Jobim), soube passar com espantosa naturalidade da posição de mestres à de parceiros e incentivadores. Sua observação sobre o gênero e número adotado pela cantautora, um "feminismo" então raro, diz muito daquele momento, em que a expectativa era pela mulher cantora, mas não autora, ao menos nas fileiras emepebistas. A narrativa de Joyce, revelando-se testemunha da fatura em processo de uma canção, nos posiciona próximos da pequena grandeza daqueles instantes ímpares, entre a labuta e o devaneio, entre o suor e o prazer, entre o cálculo e a surpresa, em que toma forma uma nova cria. Com certeza, para ela e outros da mesma geração, foram encontros definitivos para os caminhos que trilharia em seguida.