Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

28 de setembro de 2013

A equação da nação e a Feira Moderna

Estive ontem na Fafich, com grande satisfação, a convite da querida colega Miriam Hermeto, professora do departamento de História da UFMG, participando da mesa "A música de Minas entre a História e a Memória" ao lado do compositor Toninho Camargos, integrante do grupo Mambembe, cuja criação, atuação e engajamento nos tempos difíceis da Ditadura Militar pude conhecer melhor, junto com os demais presentes. Só por isso já é digna de elogio a iniciativa da Miriam, e torço para que essa iniciativa se propague e lance luz sobre outros momentos e protagonistas de nosso cenário musical que de certa forma ficam à margem de uma memória oficial que se configura basicamente na combinação do que promove a indústria fonográfica e a preferência dos resenhistas da grande imprensa.

Mas acho muito gratificante participar de uma mesa em que o debate franco e o envolvimento de todos acaba repercutindo muito além daquelas horas que ali ficamos, e essa pra mim foi assim. Tanto que abri agora há pouco uma postagem que compartilha a coluna do Zé Miguel Wisnik em O Globo, intitulada "Feira e devaneio", e não pude evitar retomar algumas das questões e reflexões da noite de ontem. Até porque me achei meio "jazzista" (deve ser a influência do livro do Becker [ver a postagem especial e a playlist], que estou tentando evitar de acabar de ler) e me empolguei nos improvisos, deixando certamente muitas frases no ar...

Enfim, vou reter aqui o trecho que me instigou:

"Do samba à bossa nova e à MPB, de Villa-Lobos e os compositores nacionalistas a Tom Jobim, da antropofagia à Tropicália, de Graciliano ao Cinema Novo, com todas as diferenças implicadas, a cultura brasileira dos anos 20 aos 60 do século XX foi movida em grande parte pelo desejo de equacionar a nação na perspectiva de uma original combinação do erudito com o popular. Combinação que resta, aliás, como seu traço diferencial inequívoco. E Brasília, com todas as suas contradições, e sua grandeza, é o próprio símbolo de um projeto nacional guiado pela elite intelectual modernista.
A ditadura veio marcar o fim desse ciclo de grandes obras totalizantes. Junto com ela, a televisão em rede nacional, ocupando todos os espaços e movendo-se pelo território nacional com uma facilidade que Macunaíma só tinha com a licença poética e imaginária do folclore. Vou isolar abruptamente um dado dessa nova realidade: a publicidade bombardeando todas as classes sociais pela televisão aberta com as promessas miríficas das mercadorias às quais os despossuídos só têm acesso imaginário"



Lembro que recordei minha inquietação com esse olhar - e escutar - tão enviesado que opunha tão categoricamente os 1960 e os 1970. A conta, pra mim, não foi fechada, aliás a ditadura e o fenômeno da televisão vão mais é ser variáveis importantes a fazer parte da equação. Isso me faz retomar o
primeiro capítulo da minha tese, justamente intitulado Feira Moderna: modernidade, internacionalização da cultura e música popular, do qual tinha planos de extrair um trecho para apresentar na mesa, mas acabei optando por restringir a breves comentários sobre a canção que inspirou tal título. Assim acabei tendo vontade de reproduzir aqui essa seção do texto (pags.56-59), claro que deslocado do grande arco argumentativo feito ao longo do capítulo, mas creio que válido ante a oportunidade de acrescentar algo que ficou por dizer na mesa e também como comentário ao escrito de Wisnik. Segue:

Por hora, vou valer-me de quatro canções que concorreram em festivais para identificar linhas de força deste debate, que irei retomar em outros capítulos. São elas Roda Viva (Chico Buarque), Alegria, alegria (Caetano Veloso), ambas do III Festival da Música Popular Brasileira (Record, 1967); Comunicação (de Edson Alencar e Hélio Matheus, defendida pela cantora Vanusa), do V Festival da mesma Record (1969); e Feira Moderna (Lô Borges, Beto Guedes e Fernando Brant), do V FIC (Globo, 1970).

Roda Viva, composta para a peça teatral homônima, trata do artista que se vê apanhado nas armadilhas da máquina comercial:

“Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu (...) A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar /Mas eis que chega a roda viva/ E carrega o destino pra lá”

A sensação de rodopiar, tragado pela “roda viva”, é reforçada pelo arranjo de vozes do refrão (com participação do conjunto MPB4), principalmente ao final, em que é repetido com andamento cada vez mais acelerado, como se fosse a própria roda girando cada vez mais rápido: “Roda mundo, roda gigante/ Roda moinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu coração”. O turbilhão carrega tudo aquilo que o narrador valoriza: o destino, a roseira, a viola, o samba, a saudade. O protagonista procura manter a resistência, “vai contra a corrente”, “toma a iniciativa”, mas seus esforços são vãos, pois “foi tudo ilusão passageira”. O canto de Chico, angustiado, denota o impasse e a impotência diante da máquina que também o carregava contra a vontade naquela época, após o sucesso estrondoso de A banda.


Alegria, alegria, expressa um ponto de vista emocional diametralmente oposto, em que o protagonista da canção, diante dos impasses da vida moderna e da realidade cotidiana da sociedade de consumo, aventura-se:

“Caminhando contra o vento/sem lenço sem documento/ (...) espaçonaves guerrilhas/em cardinales bonitas/eu vou/ em caras de presidentes/(...)bomba ou Brigitte Bardot (...)”

O narrador procura se ambientar ao cenário: “eu tomo uma coca-cola (...) e uma canção me consola”. Segue vivendo, e vendo “o Sol nas bancas de revista”, iluminado por ícones pop, uma imagem perfeitamente traduzida musicalmente na sonoridade eletrificada por órgão e guitarra do arranjo. O universo da indústria cultural é recebido numa canção de melodia e harmonia solares. Ante a angústia que assola o protagonista de Roda Viva, a alegria descompromissada, alheia a exigências intelectuais e políticas: “sem livros e sem fuzil”. Porém, num efeito tipicamente tropicalista, a canção pode ser lida em registro crítico, a começar pela forma do ritmo musical escolhido, a marcha. Se revela a integração do poeta que pensa “em cantar na televisão”, afirma seu caráter desafiador da ordem, simbolizada em instituições como o casamento e a escola. Ele, moderno, vai, “sem lenço e sem documento”.

 

Comunicação (a canção também foi gravada por Elis Regina em ...Em pleno verão. Philips LP, 1970), uma montagem com trechos de textos publicitários em que produtos de consumo dos mais diversos tipos se confundem, mostra um narrador perplexo como o de Roda Viva, mas lançado numa selva de signos como o de Alegria, alegria. Enlouquecendo, ele responde a mais uma pesquisa: “(...) já sou fã/ Do comercial”. O consumo é engendrado pela ciranda midiática: “Só tomava chá/ Quase que cansado vou tomar café / Ligo o aparelho vejo o rei Pelé/ Vamos então repetir o gol”.

 

Feira Moderna, por fim:

“Tua cor é o que eles olham,/ velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem,/ medo, medo
Feira moderna, o convite sensual / Oh! telefonista, a palavra já morreu
Meu coração é novo / Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal

Nessa caverna, o convite é sempre igual /
Oh! Telefonista, se a distância já morreu
Independência ou morte / Descansa em berço forte/
A paz na terra amém”

Esta música, que foi defendida pelo conjunto Som Imaginário no FIC em 1970 e gravada em seu primeiro LP (depois gravada por Beto Guedes no LP Amor de índio, em 1978) capta bem a associação entre os modernos meios de comunicação e o misto de espanto e sedução que atingem o homem moderno. A morte da “distância” e da “palavra” está associada a um meio que parece não dar conta de comunicar a novidade - o jornal. Anuncia-se uma nova fase em que o “agora” torna-se o tempo por excelência do mundo do capital, mas também, o que é muito interessante, o tempo por excelência da transformação. Porém, uma sutileza que chama bastante atenção é que esta urgência de “novidade” (muito bem simbolizada na figura da telefonista) vem entremeada por referências ao passado e a textos tradicionais, como o Hino Nacional, o Pai Nosso e o mito da caverna. Se a “feira” é “moderna” e o “convite” é “sensual”, este também é “sempre igual”, o que significa que o mercado pode ser percebido como algo que integra um conjunto de sistemas normativos que em algum momento da história estiveram restringindo a ação humana. Esta tensão entre a urgência do novo, própria do capitalismo, e a idéia de que o novo é uma reedição diferente da ancestral luta pela liberdade humana transparece em todo arranjo na versão do Som Imaginário, um desobediente rock selvagem com órgão elétrico e vocal gritado de Zé Rodrix. As quatro canções revelam, portanto, como compositores e intérpretes representativos do cenário de gestação da MPB expressaram posicionamentos atentos – ainda que diversos – sobre o impacto da indústria cultural sobre a sociedade brasileira e sobre seu fazer artístico naquele momento.




22 de setembro de 2013

De novo na esquina os homens estão... pintando as cores do clube



Na última quinta fui ao show de estreia de As Cores do Clube, grupo que reúne diferentes gerações de músicos associados ao Clube da Esquina pelo sangue, pelo suor e pelo som, capitaneados com toda a autoridade e brilhantismo por Toninho Horta. Fiquei esses dias todos pensando em escrever resenha, em comentar, em recordar. Acho que não farei nada disso. Muitas das coisas que passaram pela minha cabeça não querem tomar a forma de palavras. Acho que, essencialmente, por uma coisa que eu disse ao final do espetáculo, que me sentia ali, pela primeira vez em muito tempo, na "mera" condição de espectador. Deixei de lado as pesquisas, deixei de lado a porção crítico, a porção historiador, a porção compositor. Estava ali somente de Luiz, ouvindo, vendo, curtindo. Vou simplesmente sair escrevendo e ver no que dá. Vendo que era estreia, que um detalhe aqui ou ali não sai como se espera. E daí? O público, de inicio meio indolente, foi entrando no ritmo e participando cada vez mais, contagiado pela energia que sobrava no palco. O clima de informalidade, de intimismo, os sorrisos, a emoção, os abraços, em momento algum põem em questão a competência dos músicos, pelo contrário, revelam sua humanidade, sua carne e seu osso. E como é bom ver que ali há pessoas e que são elas, com seus limites e talentos, que fazem o verdadeiro show. As trocas constantes de instrumentos, dos protagonismos, dos apoios, revelavam a atmosfera impregnada de musicalidade. O repertório precioso, que eu cantava a plenos pulmões uma canção atrás da outra, nos deixa com a certeza do peso da obra do Clube, em profusão generosa, sem economia. E ainda ficaram, claro, algumas pérolas de fora, mas é bom que fica a vontade de ouvi-las numa próxima apresentação. Vou me permitir não comentar detalhadamente pra não deixar a desejar, não deixar de fora um ou outro momento, nem nada nem ninguém. Vou também apelar para o clichê sem nenhuma cerimônia, e comparar o grupo com aquele time de futebol bem equilibrado e entrosado, que mistura craques experientes com a juventude da base, fórmula que ganha campeonato. É por aí. Depois se calhar de escrever mais, de fazer resenha, farei. Quem quiser deixar suas impressões, recordações, opiniões, deixe que será de grande valia. Por agora fica a sensação - sinestésica - de que as cores do clube pintaram muito bem.

Sonho Real (Lô Borges & Ronaldo Bastos)




Foto de divulgação anterior ao show "De novo na esquina os homens estão.." Sobem ao palco do Teatro Bradesco no próximo dia 19: Toninho Horta, Telo Borges, Paulinho Carvalho, Beto Lopes, Rodrigo Borges, Gabriel Guedes, Ian Guedes, Tutuca Tiso. Participações especiais de Carla Villar, Bárbara Barcellos, Esdra Nenem e Nelson Angelo.

18 de setembro de 2013

Uakti: bezouros na praça


Baita show do Uakti no último sábado, 14 de setembro na Praça Floriano Peixoto (BH/MG), quem foi com certeza se deleitou com as instigantes versões de canções que já são verdadeiras joias. Só um deslize, que foi uma Yesterday cantada, e mal cantada, fora de propósito. Mas não tirou o brilho, inclusive porque ficaram para o bis Within you without you e Get Back, ambas geniais. Além disso, como bônus em relação ao repertório do disco, o belo duo dos Andrés pai (Arthur) e filho (Alexandre) em Blackbird. A praça, na verdade, ficou pequena, literalmente. Sempre penso, nessas situações, que poderiam ocorrer mais eventos desse mesmo naipe, e que as praças ficariam sempre lotadas. Infelizmente a programação cultural na cidade teima em subestimar a inteligência e a curiosidade do público. O encontro das poderosas canções dos Beatles com a inventividade e musicalidade do Uakti gerou algo único, cheio de sutileza e variedade, ao mesmo tempo simples, mas longe de ser simplório. A plateia envolvida e vidrada literalmente soprava as melodias, enquanto seguia com olhos e ouvidos a atuação dos músicos, cuja performance guarda sempre algo de surpreendente, pois instaura no palco um outro espaço-tempo, simultaneamente humanizado e aberto ao inusitado. 
Na falta de imagens do show, posto: player do disco completo; making of, e vídeo de outra apresentação ao vivo, de Within you without you (George Harrison).   






10 de setembro de 2013

Música Popular e Colecionismo VII - The archive

Da página da ANPUH no facebook:


"Uma das maiores coleções de discos do mundo já não existe mais. O material foi avaliado em milhões de dólares, mas o dono, morador de Pittsburgh, na Pensilvânia, não conseguiu fechar negócio com nenhuma empresa ou instituição. Paul Mawhinney só manteve os mais valiosos e o resto do material, retratado na imagem, foi destruído.
No documentário sobre o acervo ele diz o por quê: "nobody gives a damn"
 
Num dos pontos altos da entrevista, Paul afirma que apenas 17% das gravações realizadas entre 1948 e 1966 foi relançada em CD. Outro ponto de interesse é a história de criação da sua loja Record-Rama, motivado pelo ultimato de sua esposa. Numa das falas mais emocionantes de Paul em seu depoimento, ele diz que quando entrava alguém na loja procurando alguma raridade ele se sentia parte da raça humana. E por fim, ao constatar o desinteresse geral pela preservação de sua coleção e enfrentando problemas de saúde, ele encerra com uma nota melancólica: "é deprimente que não pensem em preservar isso para as futuras gerações (...) se ninguém entende o que eu fiz, então tenho que desistir disso".

The Archive from Sean Dunne on Vimeo.

8 de setembro de 2013

Diamante negro

Já fiz aqui algumas postagens sobre a relação entre a música popular e o futebol. Nesse intento, repasso aqui a homenagem feita via You Tube pelo "moreiranochoro":



Publicado em 05/09/2013
Leônidas da Silva, craque do futebol brasileiro, teria completado 100 anos em 6 de setembro de 2013, não houvesse falecido em 2004. Em 1950, quando estava se despedindo do futebol, recebeu uma homenagem em forma de samba dos compositores Davi Nasser e Marino Pinto: "Diamante Negro", um samba de verdade, forte e vibrante como os bons sambas de antigamente, na interpretação dos Vocalistas Tropicais, conjunto vocal e instrumental formado por Nilo Xavier, Raimundo Evandro, Artur Oliveira, Danúbio Barbosa e Arlindo Borges.

"Neste meu modesto samba,
sem nenhuma pretensão,
não vou falar de amor,
vou mostrar o campeão.
Vou falar de futebol,
não vou contar anedota,
vou falar de um brasileiro
que é o dono da pelota.

Leônidas nasceu
e cedo deixou a escola
porque seu claro caminho
era o caminho da bola...
Leônidas da Silva cresceu,
ganhou partidas, honras e lauréus.
Eu só queria fazer com a cabeça
o que o Diamante Negro faz com os pés..."

Nas trilhas com Ry Cooder - 1a. c/ a 7a. especial

As encruzilhadas entre o trabalho do versátil músico Ry Cooder e o cinema são muitas, e como fazia tempo que não escrevia nada da série 1a. c/ a 7a., e após alguns minutos de navegação errante pela internet acabei encontrando um mini documentário que produziu o desejo de retomá-la. Como músico, sua assinatura mais reconhecível em mais de 50 anos de carreira e diversos álbuns gravados certamente é o slide guitar, em seus próprios trabalhos, ou atuando em estúdio para discos de artistas do naipe de Bob Dylan, Rolling Stones, Taj Mahal, Neil Young, Arlo Guthrie e Eric Clapton, entre outros. Muita gente deve tê-lo ouvido como o autor dos solos do personagem de Ralph Macchio em A encruzilhada (Crossroads, 1986), road movie alusivo à história do lendário bluesman Robert Johnson. Assina a trilha deste e de mais de uma dezena de filmes, com destaque para Paris, Texas, (1985), dirigido por Win Wenders. Foi também com Wenders que dividiu os méritos pelo excelente Buena Vista Social Club, capitaneando a produção desse registro indispensável da música popular cubana cuja gravação o cineasta alemão documentou esplendidamente. O que acho mais interessante em Cooder é que assume, nos seus interesses e projetos musicais, a mobilidade característica dos tocadores de estrada, dos protagonistas de road movie. Se deixou seu pé na terra, guardando um respeitoso diálogo com diferentes tradições musicais norte-americanas, também cruzou oceanos e colaborou com músicos contemporâneos indianos e africanos. Seu engajamento político é outra característica que considero digna de nota, visível em canções como How can a poor man stand such times and live, ou a recente e sarcástica No banker left behind





1 de setembro de 2013

Saudade do tempo que não vivi

Paulinho da Viola - Meu tempo é hoje (2003): 'Documentário dirigido por Izabel Jaguaribe, é um perfil afetivo do cantor, instrumentista e compositor. O filme mostra seus mestres e amigos, suas influências musicais e percorre sua rotina discreta e muito peculiar, em suas atividades e hábitos desconhecidos dos grande público. Mas a grande revelação vem das reflexões do músico sobre um único tema: o tempo. Em vários versos ele canta: "Só o tempo ajuda a gente a viver"; "Amor, repare o tempo enquanto eu faço um samba triste pra cantar"...' [postado por Alexandre Camões no YouTube]



Logo no início do documentário Paulinho entra em uma livraria e emenda com um livreiro um papo sobre saudade, dizendo inclusive que era uma coisa que não conseguia sentir. Seu interlocutor emenda "Eu sinto muita saudade de uma época que eu não vivi". De certa forma é um sentimento do qual compartilho, e de fato não se trata, como considera o próprio Paulinho, de saudade. Trata-se de uma forma específica de experiência do tempo, em que nos apropriamos do que é possível apreender dentre vestígios do passado que nos alcançam e aos quais damos novos sentidos. Dentre estes pode estar uma certa nostalgia, até mesmo uma ilusória expectativa de restauração impossível de satisfazer, mas também a possibilidade de reinterpretar e concatenar as expressões de um tempo eminentemente diferente na medida em que participam do processo de atribuir sentido à vida e produzir compreensão de nossa própria conjuntura. Assim o título do documentário é bem escolhido, e contribui para desfazer uma leitura um tanto esquemática do compositor e sua obra, que tende a enquadrá-lo como guardião nostálgico do samba da velha guarda, quando de fato foi uma ponte entre gerações e audiências, um atualizador de tradições e certamente tem papel central nas inúmeras ressurreições do samba (tantas as vezes em que o deram como morto) nas últimas 5 décadas da história da música popular brasileira.