Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

31 de dezembro de 2011

Pequeno tributo ao jovem Mestre

A partida do Mestre Jonas (30/12/2011) é uma grande perda. Tomo a liberdade de fazer aqui um pequeno tributo:

Hoje estou em luto o destino é bruto mas também fino quando traz e quando tira um coração desse tamanho, um canto que a tantos tocou e fica e finca em nós para sempre parceria com o som com o povo com todo carinho que deu e ganhou Inesquecível Mestre, Jonas.

Reproduzo um texto do meu parceiro Pablo Castro, que foi quem nos apresentou, e que expressa exatamente o que sinto:

"Muito , muito sentido com a morte do Mestre Jonas ...Para além de um grande compositor, que morre sem ter sua obra devidamente divulgada para além do círculo de compositores , cantores e músicos de seu convívio, era uma pessoa extraordinária, em todos os sentidos, singular, espirituoso, afetivo, charmoso, único. Que terrível perda. Agora nos resta cultivar um pouco as flores que deixou gravadas em música e nas nossas saudosas memórias".

Nesse intuito reuni aqui algum material para que os leitores possam conhecê-las:
1) Texto de Israel do Vale escrito quando do lançamento de Sambêro;
2) Entrevista "É o mestre desfilando a maestria!" em que Mestre Jonas conta detalhes sobre o CD Sambêro ao site Ôce no Samba;
3) Link do seu único disco lançado em vida, Sambêro;






4) Provavelmente sua última apresentação registrada em vídeo, no Festival "Jazz en el Rio" em 11 de dezembro de 2011 em Paysandu, Uruguai:


Abraço Mestre, vá com o tempo e o vento a favor!

Rock em tempo


Essa lista, feita a partir de um velho trabalho dos tempos de graduação que depois virou um mini-curso que falava de rock, rebeldia, anos 50 e 60, ainda na década de 1990, veio à tona para colaborar com as aulas de meu amigo e colega Fabiano Buchholz sobre "(...) a música popular dos anos 50, 60 e até 70 como documentos sobre a época e as mudanças que ocorreram então no comportamento sexual, moral, afetivo, político, social e etc.", que respondi incialmente assim:
"(...) ótima proposta. vem tanta coisa à cabeça. uma vez dei um mini-curso no eneh que tinha tudo a ver com isso. vou ver se acho o material aqui, tinha tb alguns trabalhos de graduação que pode ser úteis. Tenho muuuittaaa coisa. Alguns livros legais são Rock o grito e o mito do R. Muggiati, Impressões de viagem, da Heloísa Buarque de Holanda. As entrevistas do Pasquim, e revistas de "contra-cultura". Na minha dissertação tem coisas que vc pode aproveitar, pega lá no domínio público. Já viu aquele Almanaque Anos 60? Esse não tenho... Filmes, da época tem Hair, o filme do Tommy, filmes do Elvis, o próprio Magical Mystery Tour ou Yellow Submarine. Filmes da posteridade tem o "Febre de Juventude", bem sessão da tarde mas mostra a 1a. visita dos Beatles nos EUA do ponto de vista dos adolescentes."
A curiosidade dessa lista é que, propositalmente, nela não entrou nenhuma dos Beatles, porque queria fazer outra exclusiva depois, só que o tempo foi curto... Música e Cultura anos 50/60/70 by Luiz Henrique Assis Garcia on Grooveshark

29 de dezembro de 2011

Title in hand: a brief research

Definitely, a historian's instinct never goes on vacation. When I received from my friend and Beatles connoisseur Guilherme Lentz the news that the soon to come standards album by Paul McCartney would be called Kisses on the bottom, I was curious. Even more about the connotations that such a title could have, very unusual when it comes to someone so diligent in being politically correct as Paul. Since I'm not very busy these days, I decided to do a brief research. I solved the riddle: the title is taken from the lyrics (by Joe Young) of the first song on the setlist of the record, I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter. In a naive reading it means the back (bottom) of the letter, but the song was banned in some northamerican states in 1936, when it was recorded by the Boswell Sisters (close harmony singing group of sisters raised on Camp Street in uptown New Orleans) [read here]. Westrow Coopertakes note of the use of double sense in songs from Broadway musicals. Just remember Let's do it by Cole Porter. Pedro Munoz had already commented that, when we spoke of the changes in lyrics made by a moralist Sinatra. What was McCartney thinking of? (portuguese version) In time, the version of the Boswell Sisters, probably the recording he heard in childhood:

28 de dezembro de 2011

Título em pauta: uma pequena investigação

Definitivamente, os instintos de um historiador nunca entram em férias. Quando recebi de meu amigo e grande conhecedor dos Beatles Guilherme Lentz a notícia de que o novo álbum de standards de Paul McCartney se chamaria Kisses on the bottom, fiquei curioso. Ainda mais pelas conotações que tal título poderia ter, muito inusitado em se tratando de alguém tão zeloso em ser politicamente correto como o Paul. Como não estou muito ocupado mesmo por esses dias resolvi fazer uma pequena investigação. Matei a charada: o título é extraído da letra (de Joe Young) da 1a. canção do repertório do disco, I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter. Numa leitura ingênua trata-se do verso (bottom) da carta, mas a canção foi banida em alguns estados norteamericanos em 1936, quando foi gravada pelas Boswell Sisters (trio vocal de irmãs criadas nos arredores de Nova Orleans) [para ver a postagem que consultei, aqui]. O Westrow Cooper, do blog que encontrei, atenta para o emprego do duplo sentido nas letras dos musicais da Broadway. Basta lembrar o Let's do it do Cole Porter. O Pedro Munhoz já tinha comentado isso, quando falamos das alterações moralistas feitas pelo Sinatra. No que será que McCartney estava pensando?
Outra curiosidade, a escolha do título do álbum -uma verdadeira arte, diga-se de passagem- foge das fórmulas mais óbvias, e me recordou imediatamente de um outro sacado dessa mesma maneira pelo Paul, Flowers in the dirt(de um verso da canção That Day Is Done), que aliás é dos melhores títulos de disco dele.
(english version)
Em tempo, a versão das irmãs Boswell, provavelmente a gravação que ele ouviu na infância: Link

Travessia de Björk

Procurando material que foi utilizado em outra postagem, acabei encontrando essa versão da Björk para "Travessia", 1a. parceria de Milton Nascimento e Fernando Brant, canção que os colocou em primeiro plano no cenário da MPB e que uma hora dessa merecerá uma postagem exclusiva. Curiosamente, acabei de comentar o disco Chico e Caetano juntos e ao vivo (ver aqui), observando como o Caetano se apropria das canções do Chico. A versão dela é emocionante, no meu modo de ouvir, porque ela parece absorvida por "Travessia", como intérprete. "É como se a canção nascesse de novo", nos dizeres do amigo e colega historiador Mauro Eustáquio. Ainda mais tocante é ouvir a voz dela se aninhando na música, como um bebê se aproximando das palavras e de sua sonoridade. Seu gesto se torna ainda mais significativo pelo fato de haver uma versão da letra em inglês (autoria de G.Lees) que foi gravada pelo próprio Milton no LP Courage (1969). Um interesse extra é acompanhar o debate sobre a interpretação dela nos comentários do youtube. Alguns reclamam da pronúncia, outros a celebram, naquela intensida típica das trocas de opinião via web, que motivaram o autor da postagem a comentar: "Gente! Não postei o video no intuito de julgar o jeito em que Björk canta em português. E sim mostrar a sua profunda admiração pela musica brasileira". Claro. Alberto Campos Júnior comento que "já conhecia a gravação dela e também uma entrevista em que cita Elis Regina como referência de cantora, porque cantava com sentimento mesmo sem ela entender o sentido do que dizia". Tudo isso dá boas pistas para pensar sobre os trânsitos culturais, as interpretações e também sobre como a música é consumida via internet. Falei muito sobre isso em minha tese de doutorado, mas para resumir pinço esse belo trecho do Elaborações musicais de Edward W. Said:
“(...) [transgressão é] aquela qualidade que tem a música de viajar, atravessar, ir de lugar em lugar em uma sociedade, ainda que muitas instituições e ortodoxias tenham tentado confiná-la”.
Versão da Björk
Versão do Milton no Courage

27 de dezembro de 2011

Grandes encontros na música popular II

Dando sequência à série, esse não poderia faltar: Edu & Tom - Tom & Edu, 1981, produção do Aloysio de Oliveira. Falar o que desse disco? Nada. Deixa os caras falarem (reproduzo abaixo os texto do encarte, que foi um dos motivos pra comprar o vinil no sebo. curiosidade: ele estava recortado na parte da letra de É preciso dizer adeus, de Tom e Vinícius. Quem a terá recortado, e porquê?)

"O que acontece é o primeiro encontro de dois grandes compositors de nossa música. Tudo muito à vontade, tudo muito íntimo, que seria a única maneira como esse evento deveria ser realizado. E, como resultado da mútua admiração, um participa da música do outro sempre que o momento se apresenta naturalmente.
A única coisa a acrescentar é que tomar parte num disco assim é um grande prazer (ou um sarro, um barato)."
ALOYSIO DE OLIVEIRA

"Acompanho há muitos anos o trabalho deste grande músico. Conheci Edu ainda adolescente, magro, de grandes olhos, sobraçando o violão, expectante, atento, crescendo no corpo e na música. Era ainda uma promessa. Mais um jovem talentoso que se lançava na perigosa aventura musical; a tentative de uma música brasileira, que muito pode ferir o ego e o bolso.
Hoje o revejo homem feito, charmoso, sorridente, dono de cancioneiro vaso e lindo, além de incursões no campo erudito, pois Edu sabe música, orquestra, arranja, escreve, canta e toca violão e piano.Estudou, o que representa uma enorme vantagem.
Mal redimido da noite surge, na manhãzinha de névoa o avião.
No seu bojo vem Aloysio de Oliveira, nosso amigo e produtor deste disco. Full flaps down. Landing gear down. O avião aterissa no Galeão,Rio de Janeiro. Edu, Aloysio e eu somos velhos amigos. Há muito nos entendemos bem, naquele ambiente de amizade fraternal tão necessária a este tipo de trabalho.
Que bom que chegou o dia de gravar um disco com Edu! Que alegria, que prazer! Ainda mais tendo o Aloysio como produtor! Um disco que mostra Edu e eu na intimidade, bem à vontade, despido da paraphernalia da orquestra. Basicamente violão, piano e canto.
Mas ouçamos..."
TOM JOBIM

"De todos os arquitetos de música que conheço Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é, sem dúvida o de traço mais amplo e perfeito. Dele surgem projetos sólidos, feitos para abrigar os corações do mundo.
Como um artesão, Tom cuida de seu trabalho obsessiva e constantemente, mas sem pressa. Com a ponta dos dedos,na exata emoção de quem conhece o seu ofício inteiramente. E nos ensina, a todos, o que é a Música, esta incrível e solitária experiência dos sons, suas côres e seus mistérios.E também como tratá-la, de forma simples e econômica, como um poeta: jamais poetizando seu poema.
Mais do que a alegria e o prazer deste trabalho, fica o orgulho de dividir
alguns momentos de música com o Brasileiro Antonio, das agues de março, do matita, do pôrto das caixas, do amparo, das luísas, da sinfonia de Brasília, das saudades do Brasil. O maior compositor de música popular de todos os países."
EDU LOBO


Pra dar um gostinho, confiram a ótima Moto-contínuo (Edu e Chico Buarque)

26 de dezembro de 2011

Grandes encontros na música popular


Ainda enebriado pelo CD/DVD Marsalis & Clapton, fiquei pensando em escrever sobre os grande encontros na música popular. Como poderia pensar em diversas situações e tipologias para esses encontros (parcerias, participações especiais, duetos, projetos coletivos, e por aí vai)pensei a princípio em trabalhos em que dois artistas consagrados se reunem numa empreitada que resulta num disco ou show em comum. Claro que minha tipologia fica desde já pronta para ser subvertida pelas sugestões e comentários de amigos leitores, leitores amigos. Para começar, já que estamos em tempos natalinos, chamando as inevitáveis recordações de infância, um disco que sempre tocava em casa era o Chico e Caetano juntos e ao vivo. Gravado em 1972, em plenos anos de chumbo grosso. Lembro que achava engraçado as palmas no meio das músicas, subindo de volume de repente. Mal sabia eu, então criança que vivia num país que era ditadura mas tinha eleição, partido de oposição e bomba no Riocentro, que rolava censura e que na mixagem do disco as palmas foram aumentadas pra tampar palavras censuradas, o que vim a saber na pesquisa do mestrado. Me impressiona, mais do que tudo, como o Caetano - sempre um intérprete "absorvente" - toma posse das canções do Chico, mais do que o inverso. Acho a "Partido alto" dele definitiva, por exemplo. E a grande sacada, a junção de "Você não entende nada" e "Cotidiano", intercalando o "todo dia" que anuncia a segunda ao "quero que você venha comigo". Dois ases da nossa canção.

Fragmento da história do blues

Nessa segunda-feira chuvosa, parada, vendo e ouvindo "Wynton Marsalis & Eric Clapton Play The Blues - Live From Jazz At Lincoln Center" (ter um filho que pede pra ganhar isso de natal, isso sim que é presente!), hipnotisado pela performance dos dois com a banda, pelo repertório que mostra que Clapton é muito mais que um grande músico, ícone da música popular, deus da guitarra, sei lá o que mais. É também um profundo conhecedor do blues em suas várias encarnações e procedências. Algo que é reconhecido por Marsalis, zeloso guardião e enciclopédia das tradições musicais norteamericanas. Ao ver no repertório algumas composições de W.C. Handy, lembrei dos velhos alfarrábios sobre blues que li, junto ao eterno livro de cabeceira "História Social do Jazz" do mestre dos mestres da historiografia mundial E.J.Hobsbawm (que o assinou originalmente sob o pseudônimo de Francis Newton, temeroso de ver sua reputação de historiador sério questionada nos compenetrados e ingleses anos 1950). E acabei achando num velho artigo do qual já falei no blog um trecho em que Handy descreve um bluesman em 1903:

“Um negro magrelo e descontraído que começou a dedilhar o violão enquanto eu dormia.As suas roupas estavam em farrapos, seus pés saíam para fora dos sapatos...Enquanto ele tocava, passava uma faca pelas cordas à maneira dos havaianos, que usavam barras de metal.”
Grande contrasta com a paisagem que descrevi ao final do texto, que um espetáculo como esse de Clapton e Marsalis confirma perfeitamente:
"À medida em que foi se formalizando, se tornou mais universal, alcançou outras sensibilidades, outros públicos. (...) Sua penetração, ainda mais acentuada pela indústria fonográfica, ultrapassou mesmo os limites da América, principalmente após 1940. O bluesman de hoje não é um marginal, mas uma estrela que vende milhões de discos".

24 de dezembro de 2011

...bem mais que um simples menino

Para além de todos os credos, penso no Natal como a celebração do nascimento, celebração da gana humana de vir ao mundo e fazer parte dessa história, acender uma luz, criar algo. Em nome disso, desejo a todos amigos amigas (e nenéns recém-chegados tão lindos) um belo natal, na companhia das pessoas queridas e da boa música.

22 de dezembro de 2011

Paul e os standards da canção norteamericana

Impressionante, independente de alguns tropeços eventuais, a vitalidade e produtividade de Paul McCartney. Hoje foi lançada My Valentine, uma das duas autorais que se juntarão a outras várias versões de canções que Paul ouvia na infância e faziam parte do repertório do grupo local em que tocava seu pai. Com esse novo álbum, ainda sem título (leia mais aqui) , que sairá em fevereiro de 2012, uma faceta bem marcante da personalidade autoral do McCartney será mais bem iluminada, essa ligação com standards da canção norte-americana, com artistas como Sinatra e Fred Astaire. Outro detalhe que promete é a abordagem na gravação, inédita, pois ele só (só?) canta! Participações relevantes de Diana Krall, Stevie Wonder e Eric Clapton (solando na faixa divulgada).
Pra dar um gostinho do que vem por aí...
My Valentine - Paul McCartney by PaulMcCartney Essa foi justamente dedicada a Fred Astaire. Shall we dance?
Essa Paul compôs pensando em nada mais nada menos que Frank Sinatra, mas dizem que "The Voice" a rejeitou por causa do título...

17 de dezembro de 2011

Oriente

Uma das coisas que mais me intriga e impressiona na boa canção popular, especialmente a brasileira, é seu poder de, em sua forma concisa, bem acabada, ser ponto de encontro de tantas reflexões e emoções que as possibilidades de sua re-significação e apreensão em diferentes contextos beira o inesgotável. E das canções que me levaram a pensar assim, uma das mais marcantes é Oriente, do Gil. Tudo nela é instigante e deixa aquela sensação, que creio que poucas obras realmente produzem, de ser algo que aparece justamente como devia ser, como se já estivesse no ar, insinuada, até que um certo criador apenas (se) inspira e depois a respira de volta no mundo [peço que não leiam no "apenas" um desconhecimento da transpiração que envolve o ato de compor, e sim o reconhecimento de que os grandes cancionistas fazem-no de modo a fazer o difícil parecer fácil]. A letra é das que reforçou minha admiração pelo Gil letrista. O duplo sentido do Oriente, as imagens transcendentes ou mundanas, de escala sideral ou ínfima, o diálogo emulado que na verdade é uma auto-reflexão (ver o depoimento do Gil sobre). Nesse dezembro ela me vem de novo, de outros jeitos, quando penso que agora nas bancas estou "do outro lado", como orientador ou como membro. Quando penso que agora, adquirida uma certa idade, assisto tanta gente próxima iniciando sua própria "viagem ao Japão", ex-alunos se formando, ex-estagiários na pós-graduação, vivendo aquilo que bem ou mal já vivi. Nem por isso dispenso o desejo, tão humano, de buscar outros rumos e orientes. 
 

Oriente (Gilberto Gil)
Se oriente, rapaz Pela constelação do Cruzeiro do Sul Se oriente, rapaz Pela constatação de que a aranha Vive do que tece Vê se não se esquece Pela simples razão de que tudo merece Consideração Considere, rapaz A possibilidade de ir pro Japão Num cargueiro do Lloyd lavando o porão Pela curiosidade de ver Onde o sol se esconde Vê se compreende Pela simples razão de que tudo depende De determinação Determine, rapaz Onde vai ser seu curso de pós-graduação Se oriente, rapaz Pela rotação da Terra em torno do Sol Sorridente, rapaz Pela continuidade do sonho de Adão

9 de dezembro de 2011

Carpe diem, formação e formatura

Decidi hoje retornar ao tom pessoal que o blog permite, embora venha sendo cada vez mais raro à medida em que as postagens aumentam de quantidade e regularidade. Mas hoje por um motivo especial, a formatura dos alunos do curso de História da Univale. O texto que segue é, portanto, para eles. "Formatura. Rito de passagem, em que o instante se encontra com um tempo de maior duração. O da vida toda, o dos estudos, o das opções. É um chegar aqui, mas também um daqui me vou. Para onde? Quem poderá saber... Mas vocês sabem de onde vieram. Ser historiador é ser também historiador de si mesmo. O momento da formatura é curto, o da formação é longo. Mas, num pequeno grão do tempo, pode estar resumida a narrativa do tanto que se passou, do que cada um passou. Também pode guardar a possibilidade, o que virá, o que ainda está aberto, porque somos sujeitos (ah, vocês já sabem o resto...). Bem-vindos, colegas, ao começo dessa outra estrada. Aproveitem bem esse dia. Celebrem a formatura, mas também a formação, que continuará vida afora. Não posso estar aí com vocês, mas sei que de algum modo estou. Obrigado pela homenagem, que quero retribuir com essa canção que fala do agora". Carpe Diem (Pablo Castro/Luiz Henrique Garcia) by Luiz Henrique Garcia

5 de dezembro de 2011

Ainda música popular e futebol

Continuando, que o assunto é empolgante. Duas jóias que pra mim conseguem captar de modo muito particular a plástica, a dinâmica, a estética do futebol, são O futebol, do Chico, e 1x0, choro de Pixinguinha e Benedito Lacerda em homenagem a uma vitória do Brasil sobre o Uruguai que depois veio a receber uma letra espetacular do Nelson Angelo.

Futebol, música popular e a dança das emoções

Domingo de grandes emoções proporcionadas pelo futebol, díspares e antípodas, lamento pela morte do Sócrates, júbilo pela goleada retificadora do Cruzeiro sobre o 6alo.
Uma das músicas mais expressivas dessas contradições, pra mim, é Aqui é o país do futebol, do Milton e do Brant, interpretada magistralmente pela Elis*.

* [da postagem de mpbmusikavideos, no You Tube: Elis Regina Portugal 1978 '' Aqui é o país do futebol '' Lisboa, Portugal, Teatro Vilaret, 1978
banda: César Camargo Mariano kb/Sizão Machado b/Natan Marques gtr/Crispim gtr/Dudu Portes dms


E pra completar outra pérola do repertório futebolístico do Bituca (que nas peladas invariavelmente atacava de juiz), aqui na interpretação do ilustríssimo e completíssimo Maurício Ribeiro**!
 
Belíssima homenagem aos lances geniais do craque Tostão.

**[do portalsesc no YouTube]: Violonista mineiro, foi um dos vencedores da 8ª edição do prêmio BDMG-Instrumental. No show, Maurício interpretará músicas autorais como "Ventania no cerrado" e "Choro pelo meu time que perdeu", com as quais venceu o prêmio, além de músicas de Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e Ulisses Rocha.

Formação:
Edson Fernando -- percussão
Enéias Xavier -- baixo
Joana Radicchi -- flauta
Vinicius Augustus -- sax e flauta
Maurício Ribeiro -- violão

4 de dezembro de 2011

A voz das águas

De passagem - mais uma vez, com muita felicidade - por Governador Valadares, entre tanta conversa boa e troca de ideias, sob inspiração do Rio Doce e de muita poesia, o encontro das águas com a canção popular e a promessa de artigo em parceria.
Da lista já começada, para complementar outra ainda maior, pinço: Rio Doce (Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Tavinho Moura) A terceira margem do rio (Milton Nascimento/Caetano Veloso) Canoa canoa (Nelson Angelo e Fernando Brant)
Os leitores do blog estão convidados a fazer sugestões para a lista...

Encontro da música popular com o futebol

Já pensava em fazer alguma postagem tratando do encontro da música popular com o futebol. Muitas possibilidades, muitas conversas sobre os jeitos do Brasil. Mas eis que o momento impõe, quando a tristeza encontra a memória de outros tempos, a homenagem ao Sócrates, o doutor. Em 82, aos 6 anos vi de fato a Copa pela primeira vez, encantando com a seleção, com a festa nas ruas e casas, com as músicas que acompanhavam as batidas dos corações brasileiros.

2 de dezembro de 2011

Na estante: A linguagem harmônica da Bossa Nova

Em um trabalho recente bastante elucidativo, A linguagem harmônica da Bossa Nova, José Estevam GAVA realizou comparações entre harmonizações tradicionais para canções da década de 1930 (que denominou de “velha guarda”) e composições com harmonizações bossanovistas. Sua principal constatação conduz a uma ponderação a respeito de seu caráter inovador: “(...) os novos procedimentos empregados são praticamente todos montados sobre a estrutura das mesmas funções tonais que têm servido de apoio às nossas composições populares de forma geral” (GAVA, 2002: 240). O que ocorre, segundo o autor, é que o uso de notas estranhas à tríade básica do acorde deixa de ter uso ocasional e ornamental e passa a fazer parte do plano estrutural da harmonia. Resumidamente, o novo tratamento para o acompanhamento violonístico permitiu a articulação voz-violão num arranjo a quatro vozes e a criação de uma ambientação vaga e inusitada através do uso dos acordes dissonantes que evitam um encadeamento previsível (GAVA, 2002: 239). Assim, a principal inovação harmônica foi uma sensação de indefinição resultante das “(...) longas seqüências de acordes alterados que enfraquecem as idéias de direcionalidade e causalidade tonais.” (GAVA, 2002: 240). Além de muito instigante, a discussão do livro é sustentada por uma pesquisa discográfica e bibliográfica consistente, e tem o mérito extra de, sem abrir mão da consitência teórica e técnica, ser apresentada de modo acessível a quem não tem formação musical acadêmica. Ótima leitura.