Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

23 de abril de 2011

Na prateleira


Na prateleira, ou no criado mudo, ou aonde dá pra deixar um livro à mão, ando deixando e pegando pra ler o livro que ganhei de aniversário de minha querida amiga Rita, sobre canções argentinas feitas num período de 100 anos (1910-2010), escrito pelo historiador e ensaista Sergio Pujol. Muito bem feito, bem escrito e fruto de pesquisa extensa, ótima introdução para quem, como eu, sabe pouco além de Gardel, Piazzolla e Mercedes Sosa. Organizado cronologicamente e dividido em séries cujo recorte é definido pelo suporte tecnológico que a cada momento era decisivo para a expansão massiva das canções, trata-se de um trabalho versátil, pois o autor passa da narrativa biográfica à interpretação sociológica, da crítica erudita à recordação pessoal, da contextualização histórica à análise formal, todos com igual maestria. Achei especialmente belas essas passagens do texto que trata do tango El corazón al sur, de Eladia Blázquez, que envolvem questões relativas ao espaço urbano, tema ao qual me dediquei em minhas pesquisas. Ao pensar o gesto criador da canção, Pujol se pergunta o porquê se acredita que as canções mais comoventes se originam em fatos da "vida real" e especula: "deve ser porque a experiência extramusical legitima as canções, as torna testemunhais, registros emocionais da experiência". E depois de dizer isso, mostrando como não se separa a música da história e da sociedade, ele traça, desde um oportuno "porém", o caminho inverso, mas complementar, mostrando o diálogo desta canção com outras letras e músicas de outros tempos e inserindo-a num ciclo temático em que é a dimensão musical que "encena" de dentro as transformações dos centros urbanos e os embates da modernidade. 

16 de abril de 2011

Ah, já que falei de Som Imaginário...



Um trecho sobre o Som Imaginario pinçado da minha tese de doutorado:
E a perplexidade de Jaguar, ao ver o pessoal do Som Imaginário “(...)num embalo de sambão que me pegou de surpresa(...)”[1]. Observo que, num cenário tão polarizado, era difícil delimitar as particularidades emergentes do Clube da Esquina.

Cumpre ressaltar a importância da atuação do conjunto no disco Milton e no LP com seu próprio nome (Som Imaginário, EMI, 1970). Em sua primeira formação, o grupo era composto por Wagner Tiso (Piano), Luiz Alves (Baixo), Tavito (Guitarra Base), Frederyko (ou “Fredera”, Guitarra Solo), Robertinho Silva (Bateria) e Zé Rodrix (Órgão Elétrico e Voz). A familiaridade de todos eles com a linguagem musical internacionalizada, de viés roqueiro ou jazzista, é perceptível nos dois trabalhos. A própria capa do disco do conjunto, trazendo um desenho estilizado do instrumento de cada integrante voando no espaço – alguns até providos de asas – enfatiza a liberdade formal e a ênfase no desempenho de seus músicos como instrumentistas. As composições, a maioria feita pelos próprios membros, têm caráter bem experimental, mesclando canção e improviso, letras em português e inglês, explorando sonoridades elétricas, muitos timbres na percussão e mudanças inesperadas de compasso. (GARCIA, 2007, pp. 189-190)

[1] “Show Gal Costa e Som Imaginário”. O Pasquim, n º 83, 4-10/02/1971, p.15.


Abaixo, duas formações do Som Imaginário:


Trecho de programa do Canal Brasil "O som do vinil" sobre O Som Imaginário.

E também um vídeo da canção Feira Moderna, executada no programa Ensaio
em que a banda acompanhava Gal Costa:


 Leituras complementares nos blogs Valvulado [aqui] e Tarati Taraguá [aqui]

Imagens que fazem parte da história da música popular

Ensaio fotográfico completo mostrando a produção de uma das mais marcantes capas de LPs da história da música popular, o álbum Abbey Road, dos Beatles. [clique aqui].
Acrescento o link para a seção da The Beatles Bible que trata do assunto, trazendo inclusive um esboço feito por Paul McCartney e detalhado pelo fotógrafo Iain Macmillan antes do próprio bater as fotos.

Complete photo shooting [here] for one of the most impressive album covers in the history of popular music, The Beatles' Abbey Road. Follows  link to The Beatles Bible about the same theme, showing a sketch made by Paul McCartney and detailed by photographer Iain Macmillan before he took the photos.

8 de abril de 2011

CANAL FOFÃO: O misterioso fascínio do U2

É, a música popular é mesmo cheia de mistérios. Um texto como esse ajuda a dissipar algumas brumas...

O modal e a modinha

Muito trabalho e pouco tempo pro blog... Nessas horas o jeito é apelar. Um artigo que foi legal de fazer, mesmo sem ter aproveitado muito dele pra tese. É um ensaio arriscado, casando música e iconografia, e saltando do Brasil colonial para a segunda metade do século XX.
GARCIA, Luiz Henrique A. . O modal e a modinha: transações musicais brasileiras através da iconografia. Cronos (Pedro Leopoldo), v. 7, p. 123-134, 2003.
A pintura é Negertanz (Dança de negros), de Zacharias Wagener.