Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

19 de outubro de 2017

Valeu, sô: Paul em Beagá, mais uma vez, e a lista das que ele não toca!

Mais uma noite (quando eu poderia imaginar, nos meus verdes anos de beatlemania, que iria escrever isso!) memorável. Tive essa alegria, e ainda espero tê-la novamente (e decididamente agora só vou pra ficar bem perto do palco, de arquibancada já estou bem satisfeito kkk).
Dessa vez resolvi que ficaria no fundo do estádio, mas de frente, só pra variar mesmo - acho que valeu a tentativa. Conformado já estava que dali a gente acaba olhando mais o telão mesmo. O show começou, como de se esperar, em alta voltagem, com "A Hard day's night" e aquele cartão de visita - sim, esse cara aí é um Beatle e isso atualmente é o mais próximo que vc pode ter de assistir um show deles. A fórmula infalível que garante a 'satisfaction guaranteed' é a inevitável mescla de altas doses do repertório consagrado dos 4 cavaleiros do após-calipso, alguns hits de sua carreira com Wings e solo, uma ou outra canção mais recente (nesse show para mim o ponto 'fraco', já que sinceramente coisas como Save us, Queenie Eye e esse caça-níquel com Kayne West são totalmente dispensáveis) e uma ou outra surpresa. Infalível, porque na hora em que solta uma ou outra inusitada ou relativamente desconhecida (para o delírio de quem conhece melhor a obra sempre tem algum agradinho, como "1985", ou "Here today" bela homenagem ao John lamentavelmente desconhecida do grande público, na sequência já tira da cartola uma "Maybe I'm amazed', uma "Can't buy me, love", e o pique não cai. Realmente, como já apontou o Vladimir M. A. Souza o som estava meio estranho no início, a voz do Paul às vezes encoberta pela banda. E claro que com 75 anos ele não pode cantar todas aquelas notas dos discos e tal, mas sabe como poucos o que faz e segura a peteca, inclusive no bis lá pras 3 horas de show mandando "Helter Skelter". A banda é muito boa, por sinal, bem competente, e talvez o destaque mesmo seja o Abe Laboriel Jr., batera vigoroso e carismático. Faz a falta a banda ter um guitarrista como o Robbie McIntosh, com assinatura. Mas os caras dão conta do recado. Em matéria de arranjos é uma pena não ter quarteto de cordas, naipe de sopros, instrumentação para dar outra qualidade a várias das escolhas de repertório. Quem já viu um vídeo das turnês Wings Over alguma coisa sabe o que eu estou falando. Das surpresas eu curti muito "In spite of all the danger", achei grande sacada ele mandar essa 'antiguidade', é como um vestígio arqueológico de McCartney, Já mostra o alto teor pop das melodias, e a manha de inserir pequenos trechos cantarolados que viram uma marca inconfundível de certas canções. E o arranjo pra "You won't see me"? Pra mim a parte acústica - outra marca registrada dos shows de McCartney - foi sensacional, e com certeza nenhum outro show de rock de estádio no mundo pode propiciar isso. Nota especial para 'Blackbird', precedida de uma dedicatória aos Direitos Humanos - para além de sua enfadonha correção política, nessa realmente Paul foi ao âmago do que uma canção pode significar politicamente, sin perder la ternura. Matou de raiva os coxinha na plateia, deu pra sentir. Falando em público, emoções muitas pela noite, claro, como coros incríveis em "Something" e "Eleanor Rigby" (quem mais no mundo pode ter 50 mil ou mais cantando uma canção desse naipe?) e lógico, as "Let it Be" e "Hey Jude" da vida, que não podem faltar. O medley final de Abbey Road fecha o bis com chave de ouro, ainda que eu não tenha achado os solos de guitarra particularmente interessantes dessa vez. Enfim, falar que foi um show inesquecível é chover no molhado (que bom que não choveu literalmente). Finalmente, foi uma alegria a parte ter a sorte de compartilhar os momentos com os queridos Fabiano Buchholz de Barros e Michele (que formam uma das famílias mais lindas que eu conheço). Esbarrei com o Pedro Morais ao final mas infelizmente encontrei menos amigos e amigas do que eu gostaria. Sobretudo, a felicidade maior foi viver essa noite ao lado da filhota Marilu, companhia mais especial para dividir cada minuto. Tínhamos uma brincadeirinha nossa, de eu tentar adivinhar qual seria cada próxima - claro que eu já tinha dado uma sacada no repertório dos últimos shows, mas juro que não colei rsrsrs. Ela é simplesmente uma pessoa adorável, daquelas que mereceria ser personagem numa canção do Paul. E que venha o próximo!

Nota sobre a pirotecnia: faz parte e tal, mas tem hora que é exagero. Às vezes parece que o público está torcendo para o raio laser ao invés de ouvir a música. Teve uma hora que a câmera filmou alguém filmando do celular e projetou isso no telão. Distópico é pouco. Mas claro, quer o quê, é sociedade do espetáculo, malandro!


P.S. A lista das que ele não toca (escrita em 13/10)
Dei-me conta ontem que não estava devidamente conectado com a proximidade do show de Paul McCartney, que em poucos dias estará em BH para falar uai de novo. Não posso estar ansioso como das outras vezes, pois na 1a. vez era efetivamente a primeira, e na 2a. era a 1a. em minha própria terra. Agora o sabor é diferente, talvez de a última - melhor que não seja - e por isso de repente subconscientemente adio algumas sensações. Mas meio que para me penitenciar fiz aí uma lista com 40 que ele - salvo um ou dois deslizes e exceções permitidas (como Junk que foi tocada no acústico MTV) - jamais tocou ao vivo e tende a não fazê-lo. Fui juntando de cabeça sem muito critério, fora o de ir lembrando e achando os vídeos e não colocar NENHUMA do período dos Beatles - e pode ser que por isso tenha entrado uma e outra ficado de fora. Isso me fez deixar fora muuuuita coisa que gosto. Não é nada de achar melhor ou pior, apenas um demonstrativo de que o cara tem um repertório gigantesco que para a maioria dos mortais seria indispensável de tocar e que ele pode até mesmo ignorar inclusive hits e faixas que deram títulos a discos - lamentavelmente para quem conhece a fundo sua obra.  
 

29 de setembro de 2017

Bolacha completa - Refavela (1977) - Gilberto Gil

Aproveitando o ensejo do show de reapresentação do álbum Refavela de Gilberto Gil, por ocasião dos 40 anos de sua gravação, insiro aqui a entrevista que meu parceiro Pablo Castro concedeu à Rede Minas comentando o discos como um todo e suas canções.


É uma ambição antiga produzir conteúdo em vídeo para este blog, o que por enquanto tem se mostrado inviável, mas essa carona veio muito a calhar. 








Como sempre a sessão Bolacha Completa traz o link para a audição do disco, informando que não detém direitos nem hospeda conteúdos, ficando totalmente à disposição para atender qualquer determinação dos respectivos proprietários.

27 de setembro de 2017

A canção e o humor contra a violência

Entre os dias 2 e 4 de outubro próximo, na Escola de Arquitetura da UFMG, acontecerá o Colóquio Internacional O humor contra a violência na cidade. Juntamente com a colega Miriam Hermeto, do Departamento de História da UFMG, coordeno a sessão A canção e o humor contra a violência [todos os detalhes aqui]. 


Uma versão resumida da apresentação:
A canção popular se define basicamente na refinada coordenação entre música e letra, imbricadas a ponto de configurarem um ente único. Nas relações entre o formato-canção e o meio urbano, definem-se espaços de produção, circulação e consumo, estabelecendo as ligações entre seus artífices, os mediadores culturais e o público. Assim, a canção tem sido tratada como um híbrido: produto de mercado, obra de arte, expressão de representações sociais e elemento catalisador de sociabilidades. Sempre foi uma forma de pensar o social e seus conflitos, inclusive a violência, desenvolvendo uma tradição crítica marcada por recursos expressivos, como o humor, em suas diversas tonalidades: a farsa, a ironia, o sarcasmo, a sátira, o humor negro, a paródia, o nonsense, entre outros. Ressalta-se que o recurso da crítica, na linguagem cancional, emerge não apenas nas palavras, mas na relação entre texto e elementos sonoros, como melodias, ritmos, timbres, ruídos, harmonias, arranjos, citações, etc.


Procurando sair um pouco da rotina dos formatos tradicionais de eventos acadêmicos, decidimos montar uma sessão que partisse do princípio de que dedicaríamos um tempo maior para a audição e debate, após apresentações mais curtas dos 4 convidados:


As sonoridades do humor, com Guilherme Castro, Doutor em fundamentos teóricos aplicados à produção musical pela UNICAMP e Mestre em sonologia/música e tecnologia pela UFMG. Professor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e da UEMG. Compositor, guitarrista, vocalista e produtor musical.

A canção como mediadora dos conflitos sociais, com Makely Ka, Poeta, cantor, violonista, produtor cultural e compositor.

À la lanterne: humor e violência na Paris sob a Revolução de 1789, com Allysson Lima, Mestre e graduado em História pela UFMG.

“Nós vamos invadir sua praia”: violência social e marginalização geográfica na cidade do Rio de Janeiro, com Bruno Vinícius de Morais, Doutorando, mestre e graduado em História pela UFMG.
Só pra dar o gostinho montei aqui uma lista com algumas das canções que iremos debater na sessão:









P.S. Síntese do evento:

Corri pra não perder o ônibus e chegar em tempo na Escola de Arquitetura para coordenar junto com Miriam Hermeto a sessão musical do colóquio O humor contra a violência na cidade, contando com uma escalação de prima na mesa com Guilherme Castro Allysson Lima Bruno Vinícius de Morais e Makely Ka, o prestimoso apoio da Maria Letícia Ticle e demais colegas da organização. Com a proposta de fugir, ainda que parcialmente, do lugar comum das mesas acadêmicas, promovendo a coloquialidade, passeamos por diversas épocas, contextos e gêneros, ouvimos de tudo um pouco, de marcha revolucionária francesa a rock brasileiro e samba de breque, falou-se de Mozart a Rincon Sapiência, cantou-se alguma coisa, de introdução de Bohemian Rhapsody a refrão de pagode. Que esse ecletismo não engane os desavisados. Análises argutas puseram a nu os conflitos sociais, as querelas estéticas, as disputas políticas, demonstrando como a canção tem enorme energia centrípeta, capturando em seus termos os embates e deles participando tantas vezes exercendo pelo humor formas de mediação que sugerem acomodações mas também alguma forma de violência, que pode ser do tipo que demole as convenções e os mitos, dessacraliza os grandes e dá voz aos silenciados. Esse humor que é um recurso indispensável para a vida democrática, hoje tão ameaçada.

24 de setembro de 2017

Navegação errática #1

Sempre me pego praticando esse tipo de Navegação Errática, pescando um link aqui, uma referência ali, indo parar onde menos espero nas praias do oceano digital. Resolvi criar uma série com os resultados desse tipo de exercício de flanagem digital.
Por enquanto não vou ficar elaborando muito, só enfileirar o que encontrei.



A trilha do dia começou com uma passeada pela obra de Assis Valente, motivada pela inevitável lembrança de E o mundo não se acabou, na inconfundível e inimitável interpretação de Carmen Miranda.



Minhas postagens de Assis Valente motivaram ao amigo pesquisador Magno Córdova a lembrança da gravação de Bethânia e Nara Leão para Minha embaixada chegou em "Quando o carnaval chegar"



Acabei caçando uma cópia do filme [aqui] e de um pulo parei num outro, que já me escapou o título mas cuja trilha me intrigou. Descobri que era do quinteto de excelentes instrumentistas brasileiros Mandala [Roberto Sion - Flauta, Sax Luiz Roberto Oliveira - Sintetizador, Violão Zeca Assunção - Baixo, Voz Nelson Ayres - Piano Zé Eduardo Nazário - Bateria, Percussão], que em 1976 gravou o disco homônimo:




Daí o algoritmo do You Tube abriu um monte de discos na barra lateral, e me fisgou pelo título o disco Belorizonte (1983) da banda Aum, da minha terra natal, que eu realmente não conhecia. Algumas informações aqui e aqui. Disco independente gravado no nosso cheio de história estúdio Bemol. Na sequência bati um papo online com meu amigo Tito Flávio Aguiar, professor da UFOP e colega nas desventuras de doutorado, e como eu imagine ele não só conhecia a banda - José Paulo Mesquita (Baixo) ; Leopoldo Mesquita (Bateria); Marcio (Frango) (Guitarra); Betinho (Teclados); Taquinho (Guitarra) - como tinha ido a um show dos caras. Como eu já suspeitava o nome era referente ao mantra hinduista Om. 



30 de agosto de 2017

Nas paradas de sussexo

Uma problematização desse contraditório fenômeno em que a objetificação do corpo feminino é absorvida acriticamente sob o crivo do "empoderamento", da forma como se manifesta no âmbito da música pop internacional.

Por Pablo Castro
Sobre o texto que compartilhei agora há pouco, que falava do clip da cantora Anitta em cima de uma laje de favela com mulheres nuas. 



Em primeiro lugar, eu sou totalmente contra qualquer tipo de repressão moralista, controle sexual, homofobia, perseguição de que espécie for contra orientação de gênero ou sexual de que espécie for, salvo pedofilia, necrofilia e outras síndromes como essas.
Realmente o texto compartilhado é muito agressivo, alguns qualificaram de misógino, outros concordaram. Impressiona particularmente a veemência com que algumas das minhas amigas virtuais condenaram o texto e outras defenderam-no.
Bom, a realidade atual é muito difícil de analisar, tal a avassaladora velocidade de informação, críticas, defesas e ataques, que o ambiente virtual propicia através das redes.
Mas o fato é que há um curto-circuito na idéia de empoderamento feminino preconizada pelo feminismo atual. Por um lado, o que se chama de "objetificação feminina" pela indústria cultural é denunciado como uma estrutura machista. Por outro, a própria idéia de empoderar-se implica ter suas próprias decisões à revelia da moral puritana vigente, particularmente nos EUA; no Brasil a moral católica hoje modificada sobretudo pela ascensão das evangélicas, tem um efeito parecido.
Ou seja, ao empoderar-se , a mulher teria todo o direito de andar da forma que quiser, onde quiser, e qualquer crítica a isso seria uma manifestação do moralismo patriarcal .
Mas aí, voltamos ao começo da conversa. Em primeiro lugar, segundo Freud e a maioria dos psicólogos , não existe desejo sexual sem alguma forma de objetificação. Não só a mulher é objetificada pelo homem numa relação sexual, mas também o homem é objetificado pela mulher na mesma situação íntima.
O xis da questão me parece residir na difusão cultural-simbólica de massas que impõe, hoje, a qualquer cantora de sucesso como Anitta, um modelo de sexualidade que, longe de ser uma decisão individual dela, é um fator de mercado. E , mais do que um fator de mercado, é condição sine qua non para o pertencimento a uma gama limitadíssima de super-stars contemporâneos.
O clip da Anitta, pelo que parece, não é radicalmente diferente dos clips de Madonna, Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga. São todos variações do mesmo tema : hiper-sexualidade impositiva, a idéia de harém (ou com homens ou com mulheres figurantes que fazem o papel de escravos sexuais) , a sugestão de "controle mental" , e um sem-número de mensagens subliminares. A única diferença palpável é o clip de Anitta rolar numa favela.
A música e a letra passam a ser meros detalhes do pacote , no caso de todas essas estrelas do pop-internacional.
O que agrava a questão , na minha opinião, no caso da cantora brasileira, é o fato incontestável de que temos uma cultura sexual já violenta, com alarmante índice de estupros, tráfico de mulheres, maternidade precoce, abortos clandestinos de adolescentes, violência doméstica contra a mulher, e feminicídio.
Isso é culpa da Anitta? Evidente que não. Isso já era assim há muito tempo. Mas pretender que o ambiente cultural de massas paupérrimo em que se transformou a música de massas no Brasil não tem nada a ver com isso, discordo. Tem a ver sim.
(Só lembrando que , hoje, TODAS as GRAVADORAS no Brasil são multi-nacionais com sede nos EUA. E que a cúpula da indústria fonográfica e cinematográfica mundial tem sido acusada por gente lá de dentro como ligada a uma rede mundial de PEDOFILIA. [Ex] Atores mirinis como Corey Feldman (https://www.youtube.com/watch?v=roW238dfUUk) e Elijah Wood (https://www.youtube.com/watch?v=qRLT9qtDvks) têm denunciado isso verbalmente).

Enfim, eu acho que já passou da hora da esquerda de um país como o nosso se atentar sobre essas questões.Sem binarismos. A música de massas e o cinema blockbuster não são fenômenos naturais, mas indústrias bilionárias controladas por pouquíssimas pessoas , e totalmente desvinculadas de qualquer tipo de "decisão individual" de qualquer artista .