Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

25 de setembro de 2016

POR TODO O UNIVERSO

Pra contar a história da letra dessa canção eu poderia começar de tantos pontos diferentes no tempo... há alguns meses, em maio deste ano, aconteceu um show do meu parceiro Pablo Castro e banda (Guilherme De Marco (guitarra) Paulim Sartori (baixo) D'Artagnan Oliveira (bateria) n'A Autêntica - bastião da canção autoral nas plagas do Curral D'El Rei - com participação antológica de Lô Borges tocando, segundo as palavras do próprio, o mais próximo do original os clássicos Trem Azul, Um girassol... e Para Lennon e McCartney. Foi demais, inesquecível e inenarrável... Não vou tentar descrever em palavras o que o Lô representa pra nós. Eu só conseguia lembrar da gente no apê que o Pablo morava, na Zoroastro Torres, ele tirando os discos do álbum que tinha aqueles dois meninos, um branco e um negro, pondo pra rolar, a gente ouvindo (entre tantos outros), e ele me mostrando as canções dele e depois a gente começando a fazer as nossas parcerias. E depois vi um longo arco do tempo descrevendo o desenho que levou até a noite daquele dia. Coisa de sonho real.
Eis que, no final de julho, o Pablo me telefona cheio de novidades, dentre elas a que motiva essa postagem, ou seja, que estava compondo uma canção com o Lô. Quase fiquei sem fala - quase, porque imediatamente perguntei se já tinha letra. Ele tinha começado, mas não estava propriamente satisfeito. Não hesitei, me prontificando a entrar na história e dar prosseguimento. Nos últimos tempos temos feito algumas canções assim, e pelo entendimento de tantos anos de parceria e amizade não há mistério nisso. Dessa vez, porém, um ingrediente a mais, e que ingrediente. Tremendamente generoso o Lô, nessa história toda. Quis trabalhar rápido, como se fosse preciso colocar logo a mão no troféu, não deixar escapar a oportunidade. Como pontos de partida, a gravação caseira, Pablo e Lô tocando a canção ainda sem letra, um A e um B e a partícula final lançada pelo Lô. E a parte da letra iniciada pelo Pablo, de que mantive até alguns versos inteiros (como Ávido, virei fiel/A cada sua aparição ), a ideia de usar proparoxítonas ( súbito, cálido, ávido, e depois lancei mais algumas, como órbita, átomos, partículas) e o tema romântico, contudo sem pieguice. Mas ainda faltava aquele conceito pra amarrar, sem o qual dificilmente eu consigo trabalhar. Foi pintando a temática sideral, muito forte na obra do Lô, e por ser a astronomia um assunto que curto desde a infância, enquanto o Pablo sempre teve uma ligação com astrologia. Custei mas achei o começo novo para a letra, pensando literalmente no começo do universo. Como bom fã de Cosmos penso que acertei na escolha de "pincel da Criação" - seria plausível imaginar Carl Sagan começando um programa comentando o teto da Capela Sistina, se é que não aconteceu mesmo. Como disse o Luiz Gabriel Lopes em sua relampejante leitura da canção, "referência bibliográfica é MATO". Se deixar enfio um monte mas ao mesmo tempo não poderia ficar parecendo um texto de astrofísica. Achei então os "sábios", lembrando da imagem de alquimistas, astrólogos antigos, etc., como a ilustração que tinha num livro que eu guardei desde criança e reproduzi aqui. Daí parti para aquele verdadeiro inventário do vocabulário afim, pensando especialmente em constelações, pois a ideia seria descrever a relação amorosa por meio delas. Quase tudo caiu, virou estrela cadente: Cruzeiro do Sul, cinturão de Órion, Hércules e o Leão, Virgem, Libra, Gêmeos...

Enfim, era um tipo de amor que oscilava entre o transcendental e a matéria, e me veio a ideia do cometa, puxado pela palavra "aparição", e ele por sua vez puxou "rastro" e "farol". Com alguns comentários feitos depois que a canção se tornou pública eu acabei recordando que a nossa geração teve uma onda com o cometa Halley e também que eu quando criança viajava muito pra Campinas-SP em ônibus da viação Cometa. Curiosamente, foi dentro de um ônibus, a caminho do campus da UFMG na Pampulha (ou na volta, talvez), que rascunhei mais uma boa parte da letra, usando pra tirar ideias um pequeno livro de astronomia para crianças que foi dos meus filhos e no dia que concluímos a letra dei para o filho do Pablo, meu afilhado. Foi dentro do busão que achei a chave da letra do B (escrevi: as leis da atração; gravidade; corpos) e saquei o título, homenageando a canção dos Beatles "Across the universe", que já foi lindamente gravada pelo Toninho Horta. Enfim, a gente, o Lô, Clube da Esquina e Beatles, nem preciso continuar explicando né. Daí encontrei também o lance do final, E ao final restar o nosso amor além/pelo bem de quem ainda amar a versão personalizada que eu sempre quis fazer dos versos de The End do medley final do Abbey Road. A partir daí não tive como fugir do desejo de fazer várias citações / homenagens às canções e aos letristas do Clube - Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Murilo Antunes, referências importantíssimas pra nós, ideias que ia anotando no verso de página de cópia de um artigo acadêmico escrito faz um tempo. Mas esse ouro não vou entregar, deixo pros leitores a tarefa de sair identificando letras citadas, estilos. Minto, vou dar a pista de uma só, porque é bem fora da curva: existe uma citação indireta, lateral, a uma canção de Hendrix. As outras são relativamente fáceis. Pra concluir, na gravação que eu tinha e fiquei ouvindo na viagem de ônibus (sim, porque da minha casa ao campus, com trânsito bom, gasto no mínimo 40 minutos), no final o Lô falava rapidamente sobre a última parte, usando a palavra "partícula". Resolvi que iria colocar essa palavra na letra, por mais inusitada e difícil de encaixar. Acabou saindo toda uma ideia para o final, pensando na morte e renascimento dos astros, na dança da matéria, no balé dos átomos. Foi literalmente como um cometa que essa canção pintou no nosso céu. Que ela tenha um destino no mínimo equivalente à emoção que foi fazê-la, e possa entrar na órbita da vida das pessoas.
     


Por Todo o Universo ( Pablo Castro / Lô Borges / Luiz Henrique Garcia ) 

Sábios contam como o céu nasceu
Breve feito o raio rompe meu breu
Súbito mas natural
O pincel da Criação
Espalhou constelações ao léu


Véu que veste a noite se despiu
Órbita precisa de um cometa
Ávido, virei fiel
A cada sua aparição
O seu rastro certo é meu farol


Linhas do destino
O que se aproxima
Touro guarda a rosa pra domar meu coração


Lei da gravidade
invade nossos corpos
Por todo o universo em expansão


A cada beijo seu aflora um sol
Na espiral da minha Via Láctea
Cálido e atemporal
Nebulosa em combustão
Concebendo estrelas num lençol


Se tudo terminar numa explosão
Partículas de um sonho violeta
Átomos que fomos nós
par a par irão bailar
colorindo o espaço sideral


Linhas...

E ao final restar o nosso amor além
pelo bem de quem ainda amar

19 de setembro de 2016

1a c/ a 7a - A trilha de "Aquarius", patrimônio, memória cultural e música popular

Finalmente assisti Aquarius. Grande filme, e, sobretudo, que soberba atuação da Sônia Braga vivendo a crítica musical Clara. Antológica, ainda mais em se tratando de uma atriz que já fez alguns dos papéis mais icônicos da nossa cinematografia. Merece todos os prêmios e reconhecimentos possíveis, e merece sobretudo ser devidamente celebrada em vida. O elenco quase todo atua muito bem (menos o mauricinho Carrão, desperdiçando a chance de fazer um mauricinho verídico), sob a batuta segura do diretor Kleber Mendonça Filho. Nada no cinema dele é trivial. A trilha sonora deve ser, depois da magnética presença da Sônia, o principal eixo condutor da narrativa do filme. Sobre isso, talvez com calma eu venha a escrever mais. E Recife, uma cidade tão densa em sua história, cultura e paisagem, um centro pulsante da cultura brasileira e agora definitivamente afirmada na nossa cartografia cinematográfica. Acho que teria muito mais a dizer sobre o filme, mas acho que deixo pra depois, vou deixar decantar um pouco do que agora está em suspensão [entre tantas resenhas, uma aqui]. Quem não viu, vá ver o quanto antes. E quem viu, caso não tenha visto O Som ao Redor, dê um jeito de ver porque é melhor ainda. 

Resolvi então acrescentar mais alguma coisa aos meus comentários iniciais, escolhendo um ângulo que incorpora minhas reflexões de pesquisa. Mas cumpre mencionar de partida que consultei alguns textos para me balizar e recapitular alguma coisa, basicamente a matéria mais enxuta de Tiago Dias no uol; o comentário curto mas atento de Sílvio Osias no Jornal da Paraíba, e a crítica bem feita de Paulo da Costa e Silva na Piauí

Todos concordam que a música desempenha um papel fundamental no filme. O primeiro detalhe a se notar é a opção por usar uma trilha preexistente, pois aí já está dada a premissa para o que quero discutir, que é o acervo musical como patrimônio cultural. Na escolha da trilha entram diferentes determinantes, da eficácia comunicacional que música terá para a cena e o fio narrativo da história, a construção convincente de uma paisagem sonora retratada, a tradução do estado emocional de uma personagem, e até mesmo questões de ordem técnica, como na inserção de "Another One Bites the Dust", no começo do filme, cujo baixo proeminente ajuda a testar o sistema de som das salas de cinema, pois "É perfeita para ver se está no volume certo", diz Mendonça Filho, confesso fã de Queen, segundo relatado na matéria de Dias. A comparação na forma de usar a trilha preexistente, proposta por Osias, entre o diretor e cineastas como Tarantino e Scorsese, me parece acertada. E acrescento um detalhe que me foi apontado pelo músico Artur Araújo, tanto em Aquarius quanto em O Som ao Redor, do uso do som externo dentro da cena (uma leitura sobre o assunto, texto de Hermes Leal)No caso de Aquarius, entendo que se completa com um jogo astuto em que o som da trilha "entra" e "sai" da cena, ou seja, num momento ouve-se a música captada a partir de seus emissores (o toca-fitas do carro, o toca-discos de Clara, a televisão, o piano e as vozes de quem canta ) pela microfonação ambiente mesmo, como se quem assiste também estivesse inserido no quadro, e por vezes ele passa, até abruptamente, a ser reproduzido com qualidade de gravação direto na banda sonora, ou seja, tocando para quem assiste, como que reafirmando essa outra posição de assistir ao filme, de fora do quadro. 

Ouve-se portanto a música a partir de dois pontos básicos de escuta. Um, o dos personagens, na própria tessitura da história deles que se desenrola; outro, o nosso, ou seja, o do nosso presente e do que as músicas representam quando retiradas do que podemos imaginar como um arquivo, um grande armário de discos, fitas, cds, como o de Clara no filme - talvez um pouco arriscado, mas me arvoro a concluir que todo o apartamento dela é como uma alegoria de um tempo e uma sociabilidade em desaparecimento. Como coloca o Paulo C. Silva:

Gil, Roberto Carlos, Bethânia entoam o reservatório de um conjunto de valores e de um tipo de sensibilidade que serão condensados em Clara (Sônia de Braga), que de algum modo incorpora a textura afetiva, emocional, política e humana de certa classe média dos anos 1970. É uma textura indissociável dos elementos materiais que compõem seu habitat: samambaia, cômodas, livros nas estantes, posters de filmes e quadros (Kubrick, Miró) e, sobretudo, vitrola e discos, personagens fundamentais no filme – são objetos que definem de modo preciso a subjetividade da personagem, trazem visibilidade a seus valores, prioridades, sua relação com o tempo.

Preciso. Daí caber perfeitamente o recurso ao conceito de memória cultural, tal como empregam os pesquisadores alemães Aleida e Jan Assmann. Numa síntese, "A memória cultural é constituída, assim, por heranças simbólicas materializadas em textos, ritos, monumentos, celebrações, objetos, escrituras sagradas e outros suportes mnemônicos que funcionam como gatilhos para acionar significados associados ao que passou". Ou seja, no universo da cultura material a que somos apresentados no apartamento de Clara, está um estoque de recursos mnemônicos que podem promover a criação de nexos entre passado e presente. É um filme sobre o tempo, sua passagem, o desgaste das coisas, dos corpos, das relações humanas. Sobre aquilo que se perde e aquilo que se luta para preservar, mesmo contra um fluxo aparentemente irresistível, do progresso, da idade e do dinheiro - o que se traduz essencialmente no embate em torno do prédio Aquarius. O diretor, didaticamente, nos treina nesse mecanismo no primeiro trecho do filme, decorrido no passado, na celebração do aniversário da tia Lúcia, no momento em que seu olhar sobre o armário da sala lhe remete mentalmente a tórridas experiências sexuais de sua juventude. Todo o contato físico com os discos, o verdadeiro ritual de colocá-los e alguns comentários bem posicionados - o disco do Ave Sangria: "40 anos e toca perfeito"! - de forma a adquirirmos a certeza de que tudo aquilo traduz um modo de vida e valores que definem a identidade da personagem, como de fato usamos a rememoração de modo a retirar do que está disponível nesse "reservatório" aquilo que melhor nos traduz como indivíduos e como membros de grupos sociais, coletividades regionais ou nacionais, entre outros. Ante a imposição de imperativos econômicos e tecnológicos, objetos de outro tempo se ressignificam, o que fica patente na cena que disparou em minha a ideia desse texto, quando Clara tira de dentro de seu exemplar do Double Fantasy de Lennon e Yoko um recorte de jornal de poucos dias antes da morte dele, e desencadeia uma digressão que demonstra a singularidade daquele disco, que seria improvável para um arquivo de MP3. 
Ainda que Clara expresse o cosmopolitismo próprio de seu meio, O nacional importa bastante nesse caso,ao mesmo tempo o que ela escolhe pra colocar na vitrola via de regra o que seria o espectro de canções que classificamos por MPB, em geral da década de 1970, incluindo aí a escolha nada óbvia de O Quintal do Vizinho do repertório de Roberto Carlos. As escolhas da trilha são ecléticas até certo ponto, mas é sobretudo esse recorte do patrimônio musical brasileiro, da perspectiva da geração de classe média que foi jovem na passagem dos 1970s aos 1980s , que se sobressai.  Muitas pistas jogadas sobre esse tema do nacional, da interpretação do Brasil, começando por ser Sônia Braga a atriz que faz a protagonista, um dos maiores ícones do cinema brasileiro, que deu vida a alguns dos papéis femininos mais centrais da nossa cinematografia, mas reside nos EUA, mestiça que fala inglês, fazendo uma crítica musical que se chama Clara. Esse Brasil é contado na música, naquilo que lhe aproxima e lhe distancia. Sílvio Osias atenta para cena da praia, Clara com o sobrinho e a namorada, tentando explicar a tradução da desigualdade no espaço urbano recifense, no caminho de Boa Viagem até Brasília Teimosa onde irão ao aniversário da empregada doméstica (que claro, ao longo do filme desencadeia o bom e velho tema da herança escravocrata, que Kleber já abordara tão bem em O Som ao Redor) , que em seguida se metamorfoseia nas escolhas de repertório que caracterizam os espaços sociais pelos quais os personagens transitam, Alcione na aniversário, Villa-Lobos na casa de Clara, por exemplo.
A forma como a trilha tem repercutido, sendo citada e mesmo referenciada em outros contextos, sinaliza justamente esse valor cultural, essa disposição para ser ressignificada que especialmente a canção popular apresenta. Se toda a história, e especialmente seu desfecho, representa uma tomada de posição em enfrentamento ao descarte, à sumária destruição do que remete ao passado, à decrepitude do corpo e o desprezo para com os velhos, a música é  um verdadeiro contraveneno, representando a celebração da vida, dos laços,  da experiência. Num momento que guardei como bastante emblemático, ela decide enfrentar a festa de arromba promovida para demovê-la de permanecer em seu apartamento não chamando a polícia, mas botando no talo mais um petardo do Queen, Fat Bottomed Girls. Contra tantas ameaças, literalmente nadando no mar de tubarões, Clara resiste e assume (recebendo talvez apoios inesperados e não recebendo alguns esperados) essa posição de enfrentamento e resiste, ainda que provisoriamente, à voragem dos cupins. Penso que reconhecer a importância do patrimônio cultural, especialmente aquele associado à música popular, representa exatamente isso: nossa disposição em não sermos devorados.